Brandy se destaca em "A Sala da Frente", filme de terror mais incômodo do que assustador. Kathryn Hunter brilha como sogra infernal.
“A Sala da Frente” chega com a pretensão de ser um horror elevado. Com isso, promete dissecar as entranhas de relações familiares complexas, racismo, fanatismo religioso, depressão pós-parto e os desafios do cuidado a idosos. Contudo, essa ambição se ali a um humor perverso que mergulha no tosco e na caricatura. Assim, a emergência do medo a partir do cotidiano, que poderia ser um ponto forte, acaba se diluindo. Dessa forma, elementos como a higiene de um idoso, a subjugação feminina, a chantagem financeira e as diferenças de fé são usados para construir um clima que, no fim das contas, é mais incômodo do que genuinamente aterrorizante.
Inspirado em um conto de Susan Hill, o filme se centra em Belinda (Brandy), uma professora de antropologia grávida que lida com o desrespeito alheio com uma fachada de gentileza. Sua resiliência é testada quando o marido, Norman (Andrew Burnap, muito bonito), é contatado pela madrasta Solange (Kathryn Hunter), uma figura autoritária e extremamente religiosa. A partir desse ponto, Belinda é relegada a uma espécie de coadjuvante em sua própria história
A estreia na direção dos irmãos Max e Sam Eggers, embora ouse ser provocativa na forma como tenta instigar o medo, não é muito funcional. Isso ocorre porque “A Sala da Frente” é, acima de tudo, mais incômodo do que assustador. A maneira como aborda temas tão sérios e repletos de nuances éticas é, em muitos momentos, superficial e até boba. A maior parte dessas questões é apenas pincelada, sem o desenvolvimento necessário para engajar o espectador em um terror psicológico convincente ou para deixar claro o propósito do filme. Questões sérias como a relação conjugal e o aborto espontâneo são jogadas na tela de forma largada e confusa. Desse modo, perdem-se no emaranhado de subtramas.
O grande trunfo do filme é a atuação impecável de Brandy. Conh ecida na atuação por “Eu Ainda Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado
” e por ser a primeira princesa negra da Disney em “Cinderela”, Brandy entrega uma performance que se mantém sempre convincente, mesmo diante das viradas insanas do roteiro. É na sua interpretação que se reflete toda a complexidade que o filme geralmente falha em desenvolver sobre as questões arbitrárias que tenta abordar.Além dela, a performance física de Kathryn Hunter como a detestável sogra é digna de nota. Apesar de alguns estereótipos na composição de uma idosa infernal, Hunter consegue criar uma figura que é simultaneamente incômoda e crível. É particularmente interessante como ela manipula as noções de ameaça, conservadorismo e misticismo religioso neste papel. Assim, oferece um vislumbre do potencial que o filme, infelizmente, não alcança em sua totalidade.
Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça.
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