Pois bem, é quase um truísmo dizer que Margaret Thatcher é uma daquelas figuras históricas que parecem ter sido esculpidas já à espera de uma cinebiografia. E em A Dama de Ferro, a sensação que se tem é a de que o filme finalmente aconteceu — ainda que a moldura não esteja, veja você, exatamente à altura da pintura.
O que temos aqui é, antes de tudo, um tour de force de Meryl Streep. E eu não uso o termo levianamente. É de uma acuidade técnica que beira o assombro. Streep não se limita a mimetizar Thatcher; ela a habita. Acompanhamos essa mulher já no crepúsculo da vida, sitiada pela demência senil, e a maneira como Meryl trabalha a voz — partindo daquele registro mais agudo e hesitante da juventude para o timbre grave, autoritário e perfeitamente modulado da Primeira-Ministra — é uma aula de atuação.
Soma-se a isso um trabalho de maquiagem que é, francamente, um deslumbre. Aquelas rugas no pescoço, a textura da pele… nada ali soa como prótese; tudo parece a passagem implacável do tempo. Não à toa, Meryl saiu de lá com seu terceiro Oscar debaixo do braço, e com todos os méritos.
Meryl Streep ganhou o terceiro Oscar da carreira por A Dama de Ferro
Agora, onde o filme vacila — e vacila de forma considerável — é na mão da diretora Phyllida Lloyd. Veja, Phyllida vem do teatro e teve aquele sucesso estridente com Mamma Mia!, mas aqui a linguagem cinematográfica parece lhe escapar por entre os dedos.
O roteiro de Abi Morgan (que é uma roteirista finíssima) opta por essa estrutura de memórias fragmentadas, o que é uma escolha legítima. O problema é que a montagem, especialmente no início, é de uma confusão desnecessária. São saltos temporais que parecem não encontrar um ritmo, uma pulsação interna. Phyllida abusa de sequências imagéticas acompanhadas apenas pela trilha sonora, o que acaba conferindo ao filme um ar de “videoclipe histórico” que empobrece a discussão política.
Filme carece de maior acabamento de linguagem cinematográfica
Mas, quando o filme acerta o passo, ele consegue ser bastante perspicaz ao dissecar a personalidade dessa mulher que não aceitava o “não” como resposta. É fascinante observar o isolamento de Thatcher naquele ambiente carregado de testosterona do Parlamento. Tem uma cena muito simbólica: a sala destinada às mulheres é um vazio absoluto, equipada com uma tábua de passar roupas. É de uma ironia cortante.
O filme não foge dos defeitos dela — a arrogância que beirava a cegueira, o custo altíssimo que ela pagou pela sua intransigência —, mas o faz sempre através da lente da humanidade. Jim Broadbent, como sempre impecável, traz o alívio necessário no papel de Denis Thatcher, funcionando como a âncora emocional de uma protagonista que, por definição, se recusava a afundar.
No fim das contas, A Dama de Ferro é um filme que se sustenta, essencialmente, pelo seu centro gravitacional. É uma obra correta, mas que ganha contornos de evento graças a essa interpretação monumental de Meryl Streep. Thatcher foi uma mulher que mudou o desenho do mundo no século XX; o filme, embora não chegue a tanto, cumpre a missão de nos mostrar quem era a pessoa por trás da armadura de ferro.
Avaliação

Autora da Crítica
Sophia Mendonça é uma influenciadora, escritora e desenvolvedora brasileira. É mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Em 2016, tornou-se a pessoa mais jovem a receber o Grande Colar do Mérito em Belo Horizonte. Em 2019, ganhou o prêmio de Boas Práticas do programa da União Européia Erasmus+.
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