O que torna A Bela e a Fera um marco incontestável na história do cinema não é apenas o seu ineditismo nas premiações. É claro que o feito de ter se tornado a primeira animação indicada ao Oscar de Melhor Filme diz muito sobre a dimensão artística alcançada pela produção. Ainda assim, reduzir sua importância a esse reconhecimento seria ignorar justamente aquilo que faz com que o longa continue tão vivo mais de três décadas depois de seu lançamento, em 1991. O grande triunfo está na maturidade do roteiro de Linda Woolverton, que consegue preservar o encanto dos contos de fadas sem tratar os personagens como figuras rasas ou meros instrumentos de uma moral infantil. Há conflitos emocionais bastante concretos por trás da magia, e talvez seja justamente por isso que a história continue funcionando tão bem para crianças e adultos.
A Bela e a Fera quebrou paradigmas da animação tradicional
Inspirado no clássico conto francês, o filme nos apresenta um príncipe arrogante que, após desprezar uma velha senhora que buscava abrigo em seu castelo, descobre que ela era, na verdade, uma feiticeira. Como punição por sua incapacidade de enxergar além das aparências, ele é transformado em uma criatura assustadora e condenado a permanecer daquela forma até que consiga amar alguém e ser verdadeiramente amado em troca. A premissa é conhecida, mas a maneira como a Disney trabalha a Fera torna a narrativa muito mais interessante do que uma simples história sobre um príncipe enfeitiçado esperando por sua salvação.
A Fera não é construída exatamente como um vilão. Ele é agressivo, mimado, impaciente e profundamente desagradável quando Bela chega ao castelo, mas também é alguém que passou anos isolado, aprisionado não apenas pela maldição física, mas por sua própria incapacidade de estabelecer vínculos. O filme não desculpa seu comportamento, muito menos exige que Bela o aceite desde o início. Pelo contrário: boa parte do desenvolvimento da relação entre os dois acontece porque ela o enfrenta, estabelece limites e se recusa a demonstrar qualquer reverência diante de suas explosões de raiva. Aos poucos, o personagem começa a perceber que não conseguirá conquistar afeto por meio da imposição.
A transformação de A Bela e a Fera
É justamente nessa transformação que encontramos um dos arcos mais bonitos já realizados pela Disney. O príncipe precisa mudar antes de poder recuperar sua aparência humana. A verdadeira quebra do feitiço, portanto, começa muito antes da famosa transformação no final do filme. Ela acontece quando a Fera aprende a ouvir, a demonstrar gentileza, a pensar nas necessidades de outra pessoa e, principalmente, a permitir que Bela vá embora mesmo sabendo que isso pode significar sua condenação definitiva. Quando finalmente coloca o bem-estar dela acima do próprio desejo, o personagem demonstra ter compreendido aquilo que a maldição tentava lhe ensinar desde o início.
Bela é uma das grandes protagonistas da Disney
Do outro lado da história, Bela também representa uma mudança importante na maneira como a Disney construía suas heroínas. Seu primeiro grande gesto na narrativa já diz bastante sobre sua personalidade: diante da prisão do pai, ela se oferece para ocupar o lugar dele nas masmorras do castelo. Existe nesse ato uma coragem imensa, mas também uma característica que acompanha a personagem ao longo de todo o filme: a capacidade de se importar profundamente com as outras pessoas sem abrir mão de quem ela é.
Bela é intelectualmente inquieta, curiosa e completamente deslocada na pequena comunidade onde vive. Enquanto a cidade parece satisfeita em reproduzir sempre os mesmos valores e expectativas, ela deseja conhecer outros lugares, outras histórias e outras possibilidades de vida. O livro que carrega consigo durante boa parte do início do filme não é apenas um detalhe simpático de caracterização. A leitura representa sua recusa em aceitar os limites do mundo que lhe foi apresentado. Bela imagina outras realidades porque sabe, mesmo antes de deixar sua aldeia, que aquela vida não é suficiente para ela.
Relações amorosas de A Bela e a Fera
Também por isso sua relação com Gaston é tão reveladora. Aos olhos da comunidade, ele seria o pretendente perfeito: bonito, popular, forte e admirado por praticamente todos. Bela, porém, percebe imediatamente aquilo que os outros parecem incapazes de enxergar. A beleza exterior de Gaston esconde vaidade, autoritarismo e uma absoluta incapacidade de considerar os desejos de qualquer pessoa além dele mesmo. O contraste com a Fera é bastante evidente. Enquanto Gaston se torna progressivamente mais monstruoso apesar de permanecer fisicamente belo, a Fera revela humanidade justamente quando aprende a abandonar sua brutalidade.
Essa inversão é talvez uma das ideias mais elegantes de A Bela e a Fera. O filme fala sobre olhar além das aparências sem transformar essa mensagem em uma lição simplista. Não basta afirmar que a beleza interior é mais importante. A narrativa demonstra isso por meio das escolhas dos personagens. Bela não se apaixona pela Fera porque decide ignorar seu aspecto físico ou porque acredita que precisa salvá-lo. Ela se aproxima dele somente depois que percebe uma mudança real em seu comportamento. O afeto nasce quando existe respeito.
O romance entre Bela e a Fera é construído aos poucos
Outro elemento que torna o filme tão especial é a maneira como o romance se desenvolve. Não existe amor instantâneo entre os protagonistas. Durante boa parte da história, eles mal conseguem permanecer no mesmo ambiente sem discutir. Bela sente medo e raiva da Fera, enquanto ele demonstra uma completa incapacidade de compreender por que suas ordens não são suficientes para conquistar sua atenção.
Pouco a pouco, porém, os pequenos gestos começam a modificar essa dinâmica. O momento em que a Fera salva Bela dos lobos, a maneira como ela cuida de seus ferimentos e as sequências em que os dois começam simplesmente a aproveitar a companhia um do outro são fundamentais justamente porque permitem que o relacionamento amadureça diante do espectador. Há espaço para que eles conversem, discordem, riam e descubram interesses em comum.
A famosa cena da biblioteca funciona tão bem porque representa muito mais do que um gesto romântico grandioso. A Fera começa a prestar atenção naquilo que realmente importa para Bela. Ele percebe seu amor pelos livros e oferece a ela algo capaz de dialogar diretamente com quem ela é. Não tenta transformá-la ou obrigá-la a corresponder às suas expectativas. Pela primeira vez, demonstra que realmente a observa.
A excelência da animação também é fundamental para que essa aproximação funcione. Há momentos em que pequenos movimentos, expressões ou olhares comunicam muito mais do que qualquer diálogo poderia explicar. O constrangimento da Fera durante algumas aproximações, a curiosidade crescente de Bela e a mudança gradual na postura dos dois tornam o romance particularmente convincente. É uma prova de como os animadores conseguiram construir personagens com uma impressionante riqueza emocional.
Gaston é o verdadeiro monstro da história
Se Bela e a Fera aprendem gradualmente a enxergar um ao outro de maneira mais profunda, Gaston percorre exatamente o caminho contrário. No início, ele pode parecer apenas uma caricatura divertida do homem convencido que acredita ser irresistível. À medida que a narrativa avança, porém, seu comportamento se torna cada vez mais perturbador.
Gaston não ama Bela. Ele deseja possuí-la. Sua insistência não nasce de admiração verdadeira pela personalidade dela, mas da convicção de que a mulher mais bonita da cidade deveria naturalmente pertencer ao homem que ele considera ser o melhor de todos. Quando percebe que não conseguirá conquistá-la por meios convencionais, não hesita em usar Maurice, o pai de Bela, como instrumento de chantagem. Mais tarde, manipula toda a população para atacar o castelo.
Há uma ironia poderosa nisso. A criatura que todos enxergam como monstruosa aprende compaixão, enquanto o homem celebrado por sua aparência e popularidade revela progressivamente sua crueldade. Quando a população marcha contra a Fera, portanto, o filme completa a inversão que vinha construindo desde o início.
O castelo é um dos cenários mais encantadores da Disney
É impossível falar sobre A Bela e a Fera sem mencionar os moradores encantados do castelo. Lumière, Horloge, Madame Samovar, Zip e os demais objetos transformados em personagens cumprem uma função que vai muito além do alívio cômico. Eles representam também as consequências da antiga arrogância do príncipe e, por isso, possuem interesse direto em sua transformação.
Ao mesmo tempo, são eles que introduzem Bela a um espaço que inicialmente parece ameaçador. O castelo muda de acordo com a própria relação entre os protagonistas. Nos primeiros momentos, corredores escuros, sombras e ambientes enormes reforçam a sensação de aprisionamento. Conforme Bela se aproxima da Fera, o mesmo lugar começa a adquirir calor, cor e movimento.
Essa mudança visual acompanha a mudança emocional da história sem que seja necessário explicá-la. O castelo deixa de parecer apenas uma prisão e começa a funcionar como um espaço onde aquelas pessoas, apesar da maldição, formaram uma pequena comunidade.
A trilha sonora transforma o filme em um grande musical
Há ainda a trilha sonora de Alan Menken e Howard Ashman, indispensável para compreender por que A Bela e a Fera alcançou tamanha grandiosidade. As músicas não surgem como interrupções da narrativa. Elas desenvolvem personagens, apresentam conflitos e fazem a história avançar. Existe uma evidente influência dos grandes musicais da Broadway, algo que se tornaria ainda mais marcante durante a chamada Renascença da Disney.
“Belle”, por exemplo, apresenta simultaneamente a protagonista, a cidade, Gaston e o conflito central da personagem em poucos minutos. “Be Our Guest” transforma uma simples refeição em um espetáculo de imaginação visual. Já a canção “Beauty and the Beast” acompanha o momento em que os sentimentos dos protagonistas finalmente se tornam claros sem precisar recorrer a uma declaração explícita.
A sequência do salão de baile permanece uma das imagens definitivas da animação justamente pela combinação entre música, movimento e emoção. Tudo parece cuidadosamente construído para que aquele momento represente a culminação da aproximação entre Bela e a Fera. Depois de tantas brigas, medos e hesitações, os dois finalmente parecem confortáveis na presença um do outro.
A Bela e a Fera continua sendo uma obra-prima
Talvez o aspecto mais impressionante de A Bela e a Fera seja justamente a facilidade com que o filme atravessou o tempo. Muitas produções podem permanecer importantes pela influência histórica que exerceram, mesmo quando certos elementos envelhecem. Aqui acontece algo diferente. O longa continua divertido, emocionante, visualmente deslumbrante e surpreendentemente sofisticado em sua construção dramática.
É um conto de fadas que entende que o amor não surge simplesmente porque o roteiro determina que duas pessoas devem terminar juntas. Existe transformação, convivência, conflito e escolha. A Fera precisa aprender a amar sem possuir. Bela precisa encontrar alguém capaz de respeitar sua liberdade e sua individualidade. E a narrativa ainda encontra espaço para discutir preconceito, aparência, solidão e pertencimento sem abandonar em nenhum instante o encanto de uma grande aventura romântica.
Por isso, a histórica indicação ao Oscar de Melhor Filme parece menos uma curiosidade estatística e mais o reconhecimento natural de uma produção que já naquele momento havia ultrapassado as fronteiras normalmente impostas à animação. A Bela e a Fera não é apenas um dos melhores filmes da Disney. É um dos grandes contos de fadas do cinema, concebido com um charme, uma inteligência e uma graça que o tempo, felizmente, não conseguiu desgastar.
Avaliação: 10/10

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
Avaliação: 10/10

Autora da Crítica
Sophia Mendonça é uma youtuber, podcaster, escritora e pesquisadora brasileira. É mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG). Em 2016, tornou-se a pessoa mais jovem a receber o Grande Colar do Mérito em Belo Horizonte. Em 2019, ganhou o prêmio de Boas Práticas do programa da União Européia Erasmus+.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

