A primeira vez que uma novela voltou a me impactar foi no final da década de 80, Vale Tudo. O folhetim veio com uma proposta diferente. O que libertou o público de um modelo já desgastado. Não fazia sentido a rebeldia dos jovens da década de 80.
Assim, ficava para trás, a mocinha que sofria horrores na mão da vilã (o) malvada (o) e conhecia a felicidade somente no ÚLTIMO capítulo. Isso após a saga de quase 200 capítulos. Foi assim com Simone, na primeira versão de ‘Selva de Pedra’, na década de 1970. O sofrimento se estendia a milhares de telespectadores que, por consequência, sofreram juntos por quase um ano. A catarse no último capítulo não mais satisfazia seus telespectadores, diante da realidade dos novos tempos.
O marco Vale Tudo na teledramaturgia brasileira
‘Vale Tudo’ trouxe personagens complexos e abandonou o modelo maniqueista. A partir de 1988, fomos apresentados também, a seus momentos de vulnerabilidade e de sua humanidade. As maldades, claro, sobreviveram, mas com prazo de validade. Os vilões já não venciam a partida até os momentos finais. Eles perdiam pequenas batalhas durante a novela, mas não se rendiam. Os mocinhos, agora, eram personagens com sangue nas veias. Passaram a frustrar os planos da malvada, um após o outro. Isso até que a revelação (grande desfecho) aconteça nos capítulos finais.
A morte da vilã abandonou o papel da vingança conquistada. A toda poderosa foi morta não no clímax da trama. Ela, nesse novo modelo, foi assassinada não para o delírio do público, mas sim pela fraqueza humana, o ciúme. Chegava, por fim, o limite ao poder, a própria vulnerabilidade humana. Em outro contexto, no entanto, outro vilão seguia feliz (?), com o fruto monetário de suas maldades, dando uma banana para o honesto povo tupiniquim.
Mas a que preço? Só o agora, rico e foragido poderia nos responder sobre como é viver fugindo sempre e com medo de ser descoberto pela Interpol. Ou, quem sabe deportado pelo Trump, de nossa realidade moderna.
Em 2025, uma nova e impactante mudança no formato das novelas. O streaming veio para nos oferecer a possibilidade de escolha do horário e da quantidade de episódios da novela que decidimos seguir. E, claro, com o bônus de não se arrastar por intermináveis capítulos até o seu desfecho.
De Raphael Montes, Beleza Fatal é a Vale Tudo dos anos 2020

A novidade surgiu com um escritor e roteirista dessa nova geração. Raphael Montes, 34, ousou sem renunciar aos ingredientes básicos de um bom folhetim. Ele trouxe situações inquietantes sobre a sociedade atual, mas sem o peso dos programas policiais ou aqueles de fofocas.
Raphael Montes foi o autor nacional mais vendido da Companhia das Letras em 2024. No áudio visual, ele é autor de “Bom Dia, Verônica”, já na terceira temporada pela Netiflix. Na Max, o autor marcou sua estreia como criador e roteirista da primeira novela brasileira do streaming, com Camila Pitanga, Camila Queiroz e Giovanna Antonelli, na feliz mistura de thriller dramático.
Em ‘Beleza Fatal’, Raphael Montes usou e abusou dos “plot twist”. As mudanças inesperadas da trama mantiveram o público interessado do início ao fim. A trama chegou ao fim, após 40 episódios, na sexta-feira, 21 de março. Assim, o Brasil e muitos outros países se despediram da vilã de Camila Pitanga, a Lola, que despertou o amor e o ódio em quem assistiu. O desejo de justiça da personagem de Camila Queiroz, se revelou um desejo louco por vingança. No final da trama, ela conseguiu a vitória almejada. No entanto, a advertência veio de Confúcio, há tempos atrás: “Quando atacar alguém por vingança, cave duas covas.”
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Autora

Selma Sueli Silva é criadora de conteúdo e empreendedora no projeto multimídia Mundo Autista D&I, escritora e radialista. Especialista em Comunicação e Gestão Empresarial (IEC/MG), ela atua como editora no site O Mundo Autista (Portal UAI) e é articulista na Revista Autismo (Canal Autismo). Em 2019, recebeu o prêmio de Boas Práticas do programa da União Europeia Erasmus+. Prêmio Microinfluenciadores Digitais 2023, na categoria PcD. É membro da UNESCOSOST movimento de sustentabilidade Criativa, desde 2022. Como crítica de cinema, é formada no curso “A Arte do Filme”, do professor Pablo VIllaça.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.