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Autismo e abstração

Victor Mendonça

O meu psiquiatra me solicitou um texto sobre autismo e abstração ao escrever. Retruquei. Um bom cozinheiro não revela seus truques. Mas, que bom que sempre tem um mas, pois sou movido muito em função do meu desejo de compartilhar vivências. Então, farei uma analogia entre a ecolalia tardia de uma frase do filme “Para Sempre Cinderela” e o meu processo de percepção do mundo e, consequentemente, de escrita. A ecolalia tardia pode se caracterizar pela repetição de trechos de filmes ou programas de TV.

Antes, uma contextualização breve: no livro “Minha vida de trás pra frente”, Selma Sueli Silva cita Rita Louzeiro: “Eu queria poder falar tão bem quanto escrevo, escrever tão bem quanto penso e pensar tão bem quanto sinto”. Assim como Rita e Selma, sinto-me dessa maneira. Penso por muitas vezes que o autismo é mais uma percepção exacerbada da realidade que a falta de uma percepção. Falo isso de maneira, inclusive, empírica. Recentemente, tive o pior de meus colapsos. As sensações e reações exacerbadas vivenciadas no processo apenas corroboram a minha ideia. Da mesma forma, acredito que a ciência não “inventa” as verdades, ela apenas comprova o que sempre existiu.

Em determinado momento do filme ‘Para Sempre Cinderela’, Danielle de Barbarac (Drew Barrymore) vira para a madrasta (Anjelica Huston): “Eu quero que você saiba que a partir desse momento eu te perdoo, e nunca mais pensarei em você de novo. Mas você, eu tenho certeza, vai pensar em mim cada dia pelo resto da sua vida.” Alguns podem interpretar essa fala como um caráter vingativo. No entanto, nem sempre evidenciamos os nossos pensamentos como realmente o são. Da mesma forma, o cinema precisa, em muitos momentos, mastigar as lições de moral. Voltando ao filme, acredito que a essência dessa frase seja que a nossa postura revela quem somos, melhor que quando tentamos nos revelar através das palavras. E, para a minha interpretação da realidade, isso faz muito sentido ouvindo: “o importante não é que Cinderela e o príncipe viveram feliz para sempre, mas que eles viveram”. Apenas digo que importa, no final, é a minha conclusão de que estou aqui para dialogar de forma pacífica. Neste momento, minha mente vai até Raul Seixas: “prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

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