Diferenças e Deficiência não são coisas opostas. Então, o autismo não é bom nem ruim por si só. Portanto, ele é uma deficiência e, também, uma maneira diferente de perceber e interagir com o mundo. O que traz consequências, até porque nossa sociedade se adapta majoritariamente aos padrões neurotípicos. Ser autista pode, portanto, causar muito sofrimento. No entanto, as consequências variam muito e nem sempre são negativas. Por exemplo, a minha rigidez de pensamento ao adotar valores mais conservadores sobre álcool e sexo me protegeu, sem que eu soubesse, de muitas situações prejudiciais durante minha juventude como mulher autista.
Nick Walker critica a visão do modelo médico da deficiência em relação ao autismo. Isso porque essa visão de autismo como doença frequentemente responsabiliza a pessoa autista por falhas de comunicação devido a supostas dificuldades de empatia. Essa abordagem ignora a complexidade das interações e favorece a pessoa neurotípica nos embates de comunicação. O que ocorre independentemente de seu próprio nível de compreensão.
Aqui, não se trata de negar o papel da medicina, tão importante para a qualidade de vida e a sobrevivência do ser humano. Porém, devemos entender que por trás daquele ‘paciente’, existe uma humanidade e uma história que devem ser respeitados.
A falta de acessibilidade é outro fator crucial. Aliás, ela aparece tanto na linguagem cotidiana quanto em ambientes sobrecarregados de estímulos. Então, muitas das dificuldades de interação e crises de autistas têm sua origem na relação entre o autismo e o ambiente. Assim, é importante notar que a falta de consideração pelo outro não se restinge aos autistas. Na verdade, muitos neurotípicos se sentem inseguros ao lidar com autistas e preferem não se esforçar para entendê-los.
Contudo, a pessoa autista muitas vezes se força a desenvolver habilidades para se adaptar aos neurotípicos. O que ocorre simplesmente para que ela possa sobreviver às demandas do dia a dia. Isso faz com que não haja tempo para questionar a necessidade de ter empatia ou compreender o outro. Afinal, essa adaptação é obrigatória.
É nesse contexto que a Teoria da Dupla Empatia
(MILTON, 2012) surge como uma ferramenta poderosa para analisar as relações entre autistas e neurotípicos. Poderosa porque a teoria propõe que a falta de entendimento é mútua. Assim como autistas têm dificuldade em interpretar os comportamentos neurotípicos, os neurotípicos também demonstram uma falta de repertório cultural para entender os autistas.Milton argumenta que, embora muitas pessoas autistas desenvolvam uma capacidade maior de compreensão social sobre o mundo neurotípico, o oposto raramente acontece. Geralmente, os neurotípicos não sentem nem vivenciam a obrigação de fazer o mesmo esforço, pois o mundo já está adaptado a eles.
Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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