Reza a teoria sociológica que o ato de alimentar é um ato social. Então, mais do que isso, é a forma de interação primeira. Isso, no sentido de reunir os indivíduos dentro de um parâmetro de sociedade. Entretanto, a teoria mudou com a alimentação moderna e as novas composições à mesa.
Há algum tempo, a dinâmica era conhecida. À mesa conversávamos, discutíamos. Trazíamos à tona nossos sentimentos de congregação. Conclusão, imaginávamos o compartilhamento do alimento de forma religiosa. E, ainda, generosa, dentro do princípio de quem prepara e serve a comida e nos coloca junto de uma solidariedade social.
No entanto, as discussões em torno da comida e do ato de celebrar essa ficção social tem mudado nos últimos anos. Assim, o advento das redes sociais e o acelerar do tempo, instado pela velocidade da internet, tem roubado de nós, o prazer de estar com outras pessoas à mesa.
Os estudos de Tonon (2021)[1] indicam que a sociedade mudou muito nos anos recentes. O que indica ainda, que as mídias sociais “encantam os observadores de alimentação alheia. Portanto, vários são os grupos de pessoas que gravam seus rituais de alimentação. Assim, eles colocam isso em bom som nas redes sociais. E, claro, com milhares de seguidores mundo afora. Outro ponto importante é a quantidade de pessoas que sentido o prazer de comer, e bem, vem se juntando a outros solitários, para fazer refeições em restaurantes cada vez mais adaptados para refeições não compartilhadas.
Dessa forma, vários são os grupos de pessoas que gravam seus rituais de alimentação e colocam isso em bom som nas redes sociais, com milhares de seguidores mundo afora. Além disso, outro ponto importante é a quantidade de pessoas que sentindo o prazer de comer, e bem, vem se juntando a outros solitários, para fazer refeições em restaurantes cada vez mais adaptados para refeições não compartilhadas.
Aliás, outro ponto relatado no estudo de Tonon (2021) é justamente a diferenciação entre alimentação saudável e tempo para comer. O que mais vale a pena? Executar tarefas laborais e perseguir seus objetivos ou parar e descansar a sombra de um prato de comida? A essa resposta pode-se escolher uma outra, mas há quem diga que parar para comer é perda de tempo. Nessa onda de inovações vieram “alimentos” de fácil preparo e de valor nutricional que equipara a comida “normal”. Mas para isso teremos que nos livrar da ideia romântica de que a comida da vovó ou mamãe – é a melhor que existe.
Vale a pena renunciar ao prazer à mesa? Ainda que sozinho, como tem sido comum em alguns países, como França e USA? Ou devemos manter nossas funções digestivas, a começar, talvez, pela mastigação e deglutição de alimentos, funcionando? As muitas controvérsias derivadas dessas inovações do mundo contemporâneo vão rondar os espectros de nossa vida pelos próximos anos.
Alimentação por necessidade ou prazer? Seja qual for a sua escolha, estamos diante de novos paradoxos da contemporaneidade. Serão eles a permitir nossas escolhas futuras e novas bandeiras.
Mesmo que essas bandeiras de movimentos sociais recuperem velhos dilemas sociais capitalistas – comer rápido e sem prazer, mas atendendo as demandas do empregador/trabalho. Ou, ainda, ceder as delicias da mesa e refletir sobre a convivência prazerosa de alimentos e amigos, cedendo a procrastinação e as permissões de convivência social à moda antiga.
Mas lembre-se: São escolhas… nossas escolhas.
[1] TONON, Rafael. As revoluções da comida: impactos de nossas escolhas à mesa. São Paulo: Todavia, 2021. ( Cap. 05 – Arroz solitário)
Andreia dos Santos, socióloga e professora universitária (Curso de Ciências Sociais – PUC Minas), mestrado e doutorado em Sociologia pela UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais.
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