A Sutil Invisibilidade dos Adultos Autistas: Uma Análise de "Beautiful That Way", música de Miley Cyrus, pela perspectiva do autismo.
A melancólica beleza de “Beautiful That Way” (“Linda Desse Jeito”) pode nos levar a uma reflexão profunda sobre a camuflagem social e um fenômeno delicado: o brilho da atenção e da compreensão que muitas vezes ilumina as crianças autistas, deixando os adultos em uma penumbra de invisibilidade.
O verso inicial da canção ecoa a experiência cotidiana da camuflagem social, uma estratégia de sobrevivência bem conhecida por muitos adultos autistas. Aprender a “guardar suas cartas” – ocultar traços autísticos para se alinhar às expectativas neurotípicas – torna-se uma arte sutil e exaustiva. A “cara de paisagem”, ou a impenetrável “poker face”, ilustra o esforço consciente para mascarar reações, emoções e comportamentos que poderiam denunciar a “diferença”.
Essa camuflagem, embora muitas vezes necessária para evitar o ostracismo e o julgamento, ironicamente contribui para a invisibilidade desses adultos. Ao esconderem sua verdadeira essência, eles se tornam menos visíveis para uma sociedade que, muitas vezes, só consegue conceber o autismo dentro de um conjunto limitado de estereótipos.
A exortação a se “levantar” após ser “derrubado” ressoa com as inúmeras situações em que adultos autistas enfrentam mal-entendidos, desafios sociais e até mesmo rejeição. A falta de compreensão sobre o autismo na vida adulta pode ser uma barreira constante. A resiliência se torna, então, uma ferramenta crucial de sobrevivência. No entanto, essa capacidade de seguir em frente não elimina a dor lancinante da invisibilidade, de ter suas lutas e necessidades ignoradas.
É neste ponto que a letra revela uma perspectiva crucial sobre o foco da sociedade em relação ao autismo. A “outra garota” que recebe a “luz” simboliza a criança autista, que frequentemente atrai mais atenção, recursos para diagnóstico e apoio em comparação com os adultos. Existe uma narrativa social mais forte e amplamente difundida sobre a conscientização do autismo infantil.
Embora essa atenção seja fundamental, ela pode, inadvertidamente, relegar os adultos autistas a uma posição de invisibilidade. A sociedade parece mais preparada para reconhecer e acolher o autismo na infância, talvez vendo-o com uma lente de maior condescendência (“linda desse jeito”). No entanto, espera-se que os adultos “superem” suas dificuldades ou sejam vistos como “já crescidos”, ignorando as necessidades e os desafios contínuos que enfrentam. Um adulto com crises, dificuldades sociais ou comportamentos atípicos raramente recebe a mesma compreensão ou empatia dispensada a uma criança.
Assim, “Beautiful That Way” pode ser interpretada como um lamento sutil pela invisibilidade dos adultos autistas. A música evoca a sensação de que a sociedade direcionou seu olhar para a “próxima geração” de autistas, enquanto aqueles que já navegam no mundo adulto, muitas vezes exaustos pela camuflagem, permanecem nas sombras. Suas lutas internas e a falta de compreensão podem passar completamente despercebidas.
A beleza reconhecida na criança autista, a “linda desse jeito” da infância, contrasta fortemente com a invisibilidade enfrentada por muitos adultos no espectro. A canção nos convida a expandir nossa compreensão do autismo para além da infância, a reconhecer as necessidades e os desafios únicos enfrentados por adultos que, por tanto tempo, viveram à sombra de uma atenção seletiva. É um chamado sutil para que a luz da compreensão brilhe também sobre eles.
Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça.
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