Arte e entretenimento

Crítica | A Nova Cinderela (2004): O charme irrecusável da comédia romântica adolescente

“Você tem mesmo o dom de pegar uma coisa simples e transformá-la em algo especial.” Essa fala direcionada à fada-madrinha (vivida pela sempre formidável Regina King) serve como uma luva para definir o próprio longa-metragem. A Nova Cinderela é o suprassumo do conto de fadas repaginado para a estética açucarada dos anos 2000. O filme escapa das armadilhas e clichês do gênero adolescente? Evidentemente que não. Mas é, francamente, um deleite irrecusável.

Qual a história do filme A Nova Cinderela?

A premissa, todos conhecem de cor: Hilary Duff é Sam, a gata borralheira do ensino médio americano subjugada pela madrasta perversa, cujo príncipe encantado — o jogador de futebol Austin Ames (Chad Michael Murray) — ela conhece anonimamente em um bate-papo virtual. O que eleva o roteiro, no entanto, é como ele traduz o abismo social da obra original para as angústias da identidade juvenil. Ambos vivem esmagados por máscaras sociais, aterrorizados pela rejeição. Há, diria eu, um aceno insuspeito à premissa budista do Hosshaku Kempon — o ato corajoso de descartar a imagem transitória para revelar a verdadeira essência. É no abraço a essa autenticidade que o ato final do filme se agiganta.

A Nova Cinderela é a perfeita comédia romântica adolescente dos anos 2000

O elenco entende perfeitamente a voltagem do material que tem em mãos. Duff e Murray dividem uma química talhada sob medida para arrancar suspiros adolescentes. Mas, justiça seja feita, quem rouba o longa e o coloca no bolso é Jennifer Coolidge. Como a madrasta Fiona, espalhafatosa e gloriosamente fútil, ela deita e rola no exagero caricatural, extraindo humor de onde não há e arrancando gargalhadas com aquela falta de vaidade que lhe é tão peculiar.

A direção abraça o maniqueísmo inerente aos contos de fadas sem o menor pudor. O filme sabe exatamente como manipular as emoções da plateia, oscilando entre o ridículo e o romance puro, mas faz isso com uma esperteza ímpar. Os estereótipos aqui não são defeitos; são o mesmíssimo tempero que sustenta a obra. Tudo está tão milimetricamente no seu lugar que tentar resistir ao seu charme nostálgico é, para colocar de forma simples, uma monumental perda de tempo.

Avaliação

Avaliação: 4.5 de 5.

Trailer

Trailer do filme A Nova Cinderela, disponível na HBO Max

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

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