Existem certos filmes que transcendem a tela e se tornam parte indelével do nosso DNA cultural. Uma Linda Mulher é, indiscutivelmente, um desses casos. O que a direção de Garry Marshall faz aqui é pegar a estrutura mais clássica e conhecida do conto de fadas — a velha história da Cinderela — e transplantá-la para o asfalto urbano. Com isso, traz personagens que, apesar da fábula, pulsam com uma proximidade muito maior da nossa realidade. E, vejam só: o resultado é um deleite absoluto.
E é preciso dizer, também, o quão revigorante é assistir a uma obra que não tem o menor pudor de abraçar a sua essência. Em narrativas onde o cinismo, não raro, dita o tom e parece ser um pré-requisito moderno para a inteligência, Uma Linda Mulher nos oferece um alento imensamente reconfortante. Trata-se, portanto, de uma história de amor que faz a escolha consciente e corajosa de ser formidavelmente mais romântica do que cínica. O filme rejeita a ironia defensiva em favor da emoção genuína. E lembra ao espectador que não há absolutamente nada de errado em se deixar levar, com um sorriso no rosto, pela promessa de um final feliz.
A Química Irresistível entre Richard Gere e Julia Roberts em Uma Linda Mulher
Se a produção atinge esse patamar estratosférico de sucesso, é preciso creditar o que talvez seja um dos maiores acertos de casting do cinema contemporâneo. A sintonia entre Richard Gere e Julia Roberts é um acontecimento. É uma química palpável, orgânica e que sustenta o filme nas costas com um charme formidável.
Mas, vamos dar o devido crédito: a tela pertence a Julia Roberts. No papel de Vivian, a garota de programa de personalidade indomável, ela está, na falta de uma palavra melhor, impecável. Ela domina a narrativa com uma mistura de vulnerabilidade e uma vivacidade tão genuína que a vitória no Globo de Ouro e a indicação ao Oscar não foram apenas méritos. Foram a reverência obrigatória da indústria diante de um carisma avassalador.
Figurino e Trilha Sonora de Uma Linda Mulher: A Estética de um Clássico
Para arrematar tudo isso, embalando o romance, temos escolhas estéticas que beiram a perfeição. Os figurinos são elegantes e contam a história da transformação da personagem cena após cena. Junte a isso uma trilha sonora pontualíssima, encabeçada pelo magnetismo inconfundível do hit Pretty Woman, e o que se tem é uma comédia romântica belíssima. Um filme que não pede desculpas por ser um conto de fadas, e o celebra de forma, francamente, irresistível.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

