Uma Boneca que Virou Gente: feminilidade, autismo e apego a objetos - O Mundo Autista
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Uma Boneca que Virou Gente: feminilidade, autismo e apego a objetos

Uma análise de Uma Boneca que Virou Gente sobre feminilidade, luto, autismo, apego a objetos, memória e a construção da identidade.

Uma análise de Uma Boneca que Virou Gente sobre feminilidade, luto, autismo, apego a objetos, memória e a construção da identidade.

Em Uma Boneca que Virou Gente (Life-Size), Casey (Lindsay Lohan) é uma garota que ainda lida com a morte da mãe. Então, ela encontra um livro de magia e tenta trazê-la de volta por meio de um feitiço. O ritual, no entanto, dá errado. Assim, quem ganha vida é Eve (Tyra Banks). Esta trata-se de uma boneca exuberante, otimista e moldada por um ideal quase inatingível de feminilidade.

Casey, Eve e a transmissão do que significa ser mulher em Uma Boneca que Virou Gente

A partir dessa premissa fantasiosa, o filme aborda luto, amadurecimento, identidade e a transmissão do que significa ser mulher. Isso porque Casey sofre com a interrupção de uma convivência feminina essencial para formar sua própria maneira de estar no mundo. Eve surge nesse vácuo como um modelo pronto, colorido e idealizado.

Ao adentrar o mundo real, a boneca precisa descobrir que a vivência feminina é tecida por contradições, vulnerabilidades, afetos e experiências tangíveis. Dessa forma, enquanto Eve oferece a Casey uma presença acolhedora durante o processo de luto, a menina a ensina que ser mulher não é um papel a ser encenado com perfeição. O encontro entre as duas transforma o filme em uma história delicada sobre como outras mulheres, reais ou imaginadas, nos acompanham na descoberta de quem somos.

Apego a objetos no autismo: quando as coisas também carregam afetos

Essa capacidade de projetar vida e afeto em um objeto não se restringe à ficção. No autismo, a relação com os objetos pode ultrapassar a ideia de simples posse. Um estudo publicado em 2019 na revista científica Autism, pelas pesquisadoras Rebekah White e Anna Remington, mostrou que a personificação de objetos pode ser particularmente frequente entre adultos autistas e persistir por mais tempo ao longo da vida. Outra pesquisa, conduzida por Orli Negri, White e Remington e publicada no mesmo ano na revista Autism in Adulthood, identificou que esses vínculos com entidades não humanas podem oferecer conforto, segurança, companhia e possibilidades de expressão afetiva.

Embora essa experiência não seja exclusiva da neurodivergência nem ocorra da mesma maneira para todas as pessoas autistas, os estudos ajudam a compreender por que brinquedos, roupas e outros objetos podem adquirir um significado emocional muito mais profundo do que sua função prática.

Barbies, Suzies e uma perna de boneca: minhas memórias da infância

​Ao revisitar minha infância, reconheço que minhas bonecas ocupavam exatamente esse lugar. Eu brincava com Barbies e Suzies e tecia histórias complexas para elas. Além disso, chegava a carregar para todos os cantos uma perna de boneca que, dentro do meu universo particular, era uma verdadeira varinha mágica. Hoje, compreendo que havia ali muito mais do que uma brincadeira aparentemente excêntrica. Afinal, minha hiperempatia me impelia a atribuir alma, personalidade e potencial afetivo às coisas.

Como minha mãe e minha avó participaram da construção da minha feminilidade

​Essa relação com as bonecas espelhava, também, a maneira como fui absorvendo a feminilidade através das mulheres da minha família. Minha mãe e minha avó me transmitiram gestos, sensibilidades e modos de cuidar, imaginar e perceber o outro. As bonecas, de certa forma, integravam essa mesma linhagem. Elas eram os instrumentos por meio dos quais eu ensaiava feminilidades possíveis, muito antes de conseguir nomeá-las.

Uma Boneca que Virou Gente e as mulheres, objetos e memórias que formam nossa identidade

​Ao olhar para Casey e Eve em Uma Boneca que Virou Gente, vejo um belo retrato de como objetos, mulheres e memórias atuam em conjunto na construção de uma identidade. Na minha própria história, aprender a ser mulher também passou por uma avó, uma mãe, algumas Barbies e Suzies. E, claro, por uma perna de boneca que, para mim, podia perfeitamente ser uma varinha mágica.

Avaliação de Uma Boneca que Virou Gente: 9/10

Vìdeo – Uma Boneca que Virou Gente

Sophia Mendonça

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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