Outro dia, postei nos stories do Instagram um meme que dizia: “Se a Cinderela não tivesse olhado para trás, ela não teria se casado com o príncipe”. A frase era uma brincadeira, principalmente porque a história da gata borralheira é uma daquelas narrativas que me acompanham desde a infância e sobre as quais gosto de pensar até hoje. Porém, um colega escritor respondeu perguntando se aquilo não seria uma maneira de reforçar justamente uma das mensagens mais criticadas nos antigos contos de fadas: a ideia de que uma mulher pobre só conseguiria alcançar a felicidade depois de se casar com um homem rico.
Entendo de onde vem esse questionamento, sobretudo porque essa interpretação de Cinderela se tornou bastante comum nas últimas décadas, mas não é assim que enxergo a história. Na verdade, acho até um pouco triste que uma narrativa com tantas possibilidades simbólicas tenha sido progressivamente resumida à questão do casamento, como se tudo o que acontece com a personagem antes de conhecer o príncipe tivesse importância apenas porque a conduz ao altar.
O signficado conto da Cinderela
Para mim, Cinderela nunca foi essencialmente uma história sobre uma garota encontrar um homem. É uma história sobre transformação, sobre aquilo que fazemos com as circunstâncias que recebemos e, principalmente, sobre a dificuldade de não deixar a crueldade dos outros definir a nossa maneira de existir. Evidentemente, não ignoro que estamos falando de um conto bastante antigo e de uma animação lançada pela Disney em 1950, portanto inserida em outra concepção social do que significavam felicidade, feminilidade e realização para uma mulher.
Ainda assim, uma obra não precisa ser interpretada apenas a partir daquilo que estava explícito no período em que foi produzida. É justamente por isso que certas histórias sobrevivem durante séculos. Elas continuam permitindo que diferentes gerações encontrem nelas novos sentidos. Quando revejo Cinderela, percebo temas como força feminina, compaixão, dedicação, esperança e capacidade de reconstrução, valores que não dependem da existência do príncipe encantado e que, para mim, são muito mais interessantes do que a simples fantasia de ascensão social por meio do matrimônio.
Transformação e bondade em Cinderela
Há ainda um aspecto dessa história que sempre me chamou muita atenção: Cinderela não modifica somente a condição material em que vive. De alguma forma, ela também muda o rumo de uma família atravessada por perdas e ressentimentos. Antes mesmo de sofrer nas mãos de Lady Tremaine, a personagem já havia perdido a mãe. Depois, perde também o pai e acaba vivendo em uma casa na qual deveria ser reconhecida como filha, mas passa a ocupar uma posição próxima à de uma criada.
Quando pensamos nessa trajetória inteira, o final no castelo deixa de significar simplesmente que uma moça pobre conseguiu se casar com alguém da realeza. A mudança é muito maior. Cinderela consegue interromper uma sequência de abandono, humilhação e amargura que parecia ter se tornado o único destino possível para ela. É claro que o casamento é o recurso utilizado pelo conto para representar essa passagem, porque estamos falando da linguagem dos contos de fadas, na qual castelos, vestidos, madrastas, bailes e casamentos quase nunca significam apenas aquilo que representam literalmente.
Lady Tremaine e Cinderela
Por isso, vejo o casamento muito mais como um símbolo de mudança de estado do que como a verdadeira recompensa da personagem. Cinderela chega ao final da história em uma posição completamente diferente daquela em que começou, mas a transformação fundamental já estava acontecendo muito antes de ela conhecer o príncipe. Durante toda a narrativa, Lady Tremaine tenta convencê-la de que ela é inferior, de que deve permanecer naquele lugar e de que não merece participar do mesmo mundo das outras pessoas da casa. Entretanto, Cinderela nunca assimila completamente essa imagem construída pela madrasta. Ela sofre, fica triste, se revolta em alguns momentos e certamente deseja uma vida diferente, mas continua acreditando que existe alguma coisa além daquela casa. Para mim, esse é um ponto essencial da história: sua força não está em não sofrer, e sim em não permitir que o sofrimento seja a única coisa a defini-la.
Cinderela e a força feminina
É também por isso que nunca enxerguei a bondade da personagem como sinônimo de passividade. Acho curioso como algumas releituras contemporâneas parecem sentir necessidade de provar que uma mulher é forte fazendo com que ela seja agressiva, sarcástica ou fisicamente poderosa. Não há nada de errado com essas características, claro, e elas podem render ótimas heroínas, mas não são as únicas maneiras de representar força feminina.
Cinderela vive em um ambiente profundamente hostil e, ainda assim, não passa a reproduzir o comportamento de Lady Tremaine sobre aqueles que considera mais vulneráveis. Isso me parece bastante significativo. Ela poderia descontar sua frustração nos animais ou tratar com desprezo quem estivesse abaixo dela naquela pequena hierarquia doméstica, mas faz justamente o contrário. E não acho que o filme esteja dizendo que uma pessoa deve aceitar maus-tratos sorrindo ou que estabelecer limites seja errado. O que vejo ali é outra coisa: a decisão de não permitir que a crueldade recebida se transforme automaticamente em crueldade oferecida.
Talvez seja justamente aí que Cinderela continue muito atual para mim. Não importa o quanto a vida possa nos apresentar circunstâncias injustas, a maneira como respondemos a essas circunstâncias ainda diz respeito àquilo que escolhemos construir. Evidentemente, existem situações que não dependem exclusivamente de esforço individual, e seria bastante perigoso transformar uma história como essa em uma defesa da ideia de que basta pensar positivo para superar qualquer opressão. Não é isso. Cinderela precisa de ajuda, precisa de oportunidade e precisa que circunstâncias externas também mudem. O que ela preserva é a capacidade de reconhecer essa oportunidade quando ela finalmente aparece. Nesse sentido, sua esperança não é ingenuidade, mas uma espécie de abertura para a possibilidade de que a vida não será necessariamente igual para sempre.
Os símbolos de Cinderela
Também gosto muito de pensar nos objetos e personagens que cercam Cinderela como partes dessa transformação. O sapatinho de cristal, por exemplo, costuma ser lembrado apenas como o objeto que permite ao príncipe reencontrar a jovem depois do baile, mas ele me parece carregado de uma simbologia relacionada ao tempo e à própria permanência da experiência.
À meia-noite, praticamente tudo aquilo que a magia criou desaparece. A carruagem volta a ser uma abóbora, os cavalos retornam às formas anteriores e o vestido deixa de existir. O sapatinho, entretanto, permanece. É como se fosse uma pequena prova material de que aquilo realmente aconteceu, mesmo depois que todos os elementos extraordinários daquela noite desapareceram. Ele liga dois momentos da vida de Cinderela e faz com que uma experiência aparentemente passageira tenha consequências duradouras.
O vestido também tem uma força simbólica enorme, e talvez seja por isso que a cena de transformação continue sendo uma das minhas favoritas entre todas as animações da Disney. Acho aquela sequência belíssima não apenas pela qualidade visual da animação, mas pelo que representa para a personagem. Quando a Fada-Madrinha transforma os trapos de Cinderela naquele vestido de baile, não sinto que ela esteja criando uma nova mulher, muito menos dizendo que a personagem precisava ficar bonita para ter valor.
O que acontece me parece quase o contrário: durante alguns instantes, o mundo exterior finalmente passa a refletir algo que sempre esteve dentro dela e que Lady Tremaine se esforçava para apagar. Existe também uma certa melancolia nisso, porque nós, espectadores, sabemos que a magia tem prazo de validade. Talvez justamente por isso a cena seja tão comovente. Cinderela finalmente consegue experimentar uma noite em que não está definida pelas roupas velhas, pelas tarefas domésticas ou pela posição que sua madrasta decidiu lhe impor.
A mensagem de Cinderela
Os ratinhos são outro elemento aparentemente infantil que considero importante. Eles trazem humor e tornam o filme mais charmoso, mas também mostram a maneira como Cinderela se relaciona com seres dos quais, em princípio, não teria nada a ganhar. Ela alimenta, protege e trata aqueles animais com carinho simplesmente porque isso faz parte da forma como escolhe agir. Dentro da lógica do conto de fadas, serão justamente esses personagens pequenos e aparentemente irrelevantes que terão participação decisiva quando Cinderela estiver em perigo.
Gosto muito dessa ideia porque ela fala sobre a maneira como tratamos pessoas quando acreditamos que elas não podem nos oferecer nenhuma recompensa. É muito fácil ser agradável com alguém poderoso ou com quem pode abrir portas para nós. O caráter aparece com muito mais clareza na forma como nos relacionamos com quem não tem nada evidente a nos oferecer.
A Fada-Madrinha e a importância de aceitar ajuda
A Fada-Madrinha também ganha outro significado quando deixamos de interpretá-la simplesmente como a criatura mágica que aparece para resolver todos os problemas da protagonista. Ela surge exatamente quando Cinderela chega ao seu limite. Depois de criar expectativas para o baile, trabalhar para conseguir ir e ver o vestido preparado com a ajuda dos ratinhos ser destruído pelas irmãs, a personagem finalmente desaba. Acho importante que isso aconteça. Cinderela não passa o filme inteiro sorrindo diante do sofrimento como se nada a atingisse. Existe um momento em que ela simplesmente não consegue mais sustentar a própria esperança, e é nesse instante que alguém aparece para ajudá-la.
Sempre gostei de pensar na Fada-Madrinha como uma representação daquelas pessoas que surgem na nossa trajetória e nos oferecem algo que sozinhos não conseguiríamos alcançar naquele momento. Pode ser uma mãe, uma avó, um amigo, um professor, alguém que oferece uma oportunidade profissional ou simplesmente uma pessoa capaz de dizer a frase certa em uma fase particularmente difícil. Há uma tendência muito grande de romantizar a ideia de que as pessoas bem-sucedidas fizeram tudo sozinhas, quando quase nenhuma trajetória humana funciona assim. Em algum momento, alguém acreditou em nós, abriu uma porta, ensinou alguma coisa ou simplesmente ofereceu companhia. Isso não diminui o mérito de ninguém.
Fada-Madrinha e Cinderela
Ao mesmo tempo, a Fada-Madrinha também não pode viver a experiência por Cinderela. Ela cria o vestido, a carruagem e os meios para chegar ao baile, mas é a própria jovem que precisa sair daquela casa, entrar no palácio e aproveitar a oportunidade. Talvez seja uma distinção pequena, porém importante. Receber ajuda não significa deixar de participar da própria transformação. Muitas vezes, alguém pode nos oferecer uma porta aberta e ainda assim precisaremos decidir atravessá-la. Cinderela faz exatamente isso. Mesmo depois de tantas experiências que poderiam ter convencido a personagem a desistir, quando uma possibilidade concreta aparece, ela vai.
Por que Cinderela continua atual
É por tudo isso que fico um pouco incomodada quando vejo Cinderela ser descartada como uma história necessariamente ultrapassada apenas porque termina em casamento. Acho perfeitamente válido analisar criticamente aquilo que os contos de fadas dizem sobre gênero, beleza, classe social e relações amorosas. Essas discussões são importantes e, inclusive, ajudam a perceber elementos que durante muito tempo foram naturalizados. O problema aparece quando essa crítica se transforma em uma leitura tão reduzida quanto aquela que pretende combater.
Dizer simplesmente que Cinderela ensina meninas a esperar por um homem rico me parece ignorar quase toda a trajetória da própria personagem. O príncipe aparece relativamente pouco na animação de 1950 e sabe-se muito menos sobre ele do que sobre a relação de Cinderela com Lady Tremaine, os ratinhos ou a própria Fada-Madrinha. Isso, por si só, já deveria indicar que talvez o centro emocional da narrativa esteja em outro lugar.
Para mim, Cinderela fala muito mais sobre uma mulher que se recusa a acreditar completamente na identidade que outras pessoas tentaram impor a ela. Fala sobre alguém que perde os pais, passa a ser humilhada dentro da própria casa e vê sua autonomia praticamente desaparecer, mas ainda mantém algum espaço interior onde consegue imaginar outra vida. E talvez essa seja uma das razões pelas quais a história continua sendo reinterpretada tantas vezes. Em diferentes versões, muda-se o príncipe, muda-se a época, muda-se o vestido, muda-se até a personalidade da protagonista, mas permanece esse desejo essencial de sair de uma realidade que parece determinada e descobrir que o futuro ainda pode ser diferente.
Cinderela, da Disney
Além disso, a animação de 1950 continua funcionando muito bem enquanto filme. Os coadjuvantes dão ritmo e humor à história, especialmente Jaq e Tatá, e Lady Tremaine permanece, para mim, uma das melhores vilãs da Disney justamente porque não precisa de poderes mágicos. Sua ameaça é doméstica, psicológica e, por isso mesmo, bastante reconhecível. O modo como ela controla Cinderela por meio do olhar, do tom de voz e de pequenas manipulações cria uma antagonista assustadora sem que a personagem precise lançar um único feitiço. A trilha sonora também contribui muito para aquela atmosfera delicada e sonhadora, enquanto a animação da transformação dos trapos no vestido de baile continua impressionante mesmo tantas décadas depois.
Veredito
No fim das contas, quando penso naquele meme que deu origem a toda essa reflexão, continuo acreditando que Cinderela tem muito mais a dizer do que simplesmente “uma mulher se casou com um príncipe e viveu feliz para sempre”. Talvez o casamento seja a imagem que encerra a narrativa, mas ele não é aquilo que torna a jornada interessante. O que me emociona é acompanhar alguém que poderia ter se tornado tão amarga quanto as pessoas que a machucaram e, mesmo assim, encontra outra possibilidade de existência. O castelo, o príncipe e o sapatinho fazem parte da recompensa típica de um conto de fadas, mas a verdadeira transformação já havia começado muito antes do baile. E é justamente por isso que, mais de sete décadas depois da estreia da animação da Disney, ainda acho que existe tanta coisa para conversar sobre Cinderela.
Avaliação: 10/10

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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