Sempre que comemoramos a Proclamação da República, vale a pena voltar um pouco no tempo para entender a construção do nosso país. Naquela época, em 1889, os partidários mais expressivos do republicanismo se dividiam em três alas diferentes: militares positivistas, evolucionistas e revolucionários.
Os militares positivistas queriam a modernidade e a centralização do poder da República. O mesmo, aliás, que desejavam os evolucionistas, fortemente apoiados pelos cafeicultores paulistas. Por fim, os revolucionários representavam uma minoria que sonhava com um novo regime inspirado na Primeira República Francesa, onde as classes populares teriam uma participação significativa.
A “República Provisória” de Marechal Deodoro da Fonseca
Nessa correlação de forças, os militares foram os grandes responsáveis pela transição política, que ocorreu sem qualquer participação ou apoio das classes menos privilegiadas. E, o mais inusitado: tudo se consolidou à noite, durante uma reunião na casa do Marechal Deodoro da Fonseca.
Lá, os articuladores do golpe proclamaram a República em caráter “provisório”, até que fosse realizado um referendo popular. O detalhe curioso da nossa História do Brasil é que esse referendo popular só veio 104 anos depois, em 1993. Vivemos, portanto, em uma República provisória de 1889 até 1993. Não é a cara do Brasil?
De Susto em Susto: A Crise Política e João Goulart
Durante esse período, nossa república foi se firmando de sobressalto em sobressalto, até culminar em outro golpe militar, em 1964.
O cenário de crise começou após a renúncia do então presidente Jânio Quadros. Os militares tentaram vetar a posse do vice-presidente, João Goulart (Jango), sob a justificativa de que ele era “comunista demais” para o gosto militar, alegando temores em relação à segurança nacional.
Diante disso, a força militar enviou uma carta ao Congresso Nacional reivindicando a extensão do mandato de Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara que havia assumido o poder interinamente enquanto Jango estava em uma viagem à China. Sabendo das intensas pressões que o cercavam, João Goulart estendeu sua viagem em uma visita estratégica aos Estados Unidos.
O Parlamentarismo no Brasil e as Reformas de Base
A estratégia não convenceu os opositores. Pouco depois, o Congresso Nacional aprovou, de maneira arbitrária, a mudança do regime político nacional para o parlamentarismo. O objetivo era claro: limitar significativamente as ações do Poder Executivo e, consequentemente, esvaziar os poderes de Jango. Foi apenas sob essa condição que João Goulart conseguiu assumir a vaga deixada por Jânio Quadros, em 7 de setembro de 1961.
Com a instalação do parlamentarismo, Jango ficou engessado e não teve como aprovar suas propostas políticas. Ainda assim, elaborou um plano de governo voltado para três pilares fundamentais:
- Desenvolvimento econômico;
- Combate à inflação;
- Diminuição do déficit público.
Contudo, o parlamentarismo não agradou à nação. Em 1963, a população brasileira apoiou nas urnas o retorno do sistema presidencialista, devolvendo os poderes a João Goulart. Fortalecido, o presidente passou a defender mudanças estruturais que promoveriam a distribuição de renda, conhecidas historicamente como as Reformas de Base.
O Golpe de 1964 e o Exílio
As ações de Jango contrariaram diretamente os interesses dos grandes proprietários de terras, do empresariado e das classes médias conservadoras. Com isso, membros das Forças Armadas, apoiados pelas elites nacionais e pelos Estados Unidos, começaram a arquitetar a derrubada do governo.
No dia 31 de março de 1964, os militares tomaram o poder. João Goulart não resistiu com o uso da força, deixou o governo e refugiou-se no Rio Grande do Sul. De lá, partiu para o exílio no Uruguai e, posteriormente, na Argentina, onde morreu aos 57 anos, supostamente vítima de um infarto.
Muitas décadas depois, o corpo do ex-presidente foi exumado devido à forte suspeita de assassinato por envenenamento, orquestrado por forças da ditadura militar. Em Brasília, os restos mortais de Jango receberam honras militares fúnebres, um ato que resgatou uma passagem fundamental do nosso cenário histórico — uma época marcada pela forte ação de “forças ocultas”.
A Busca pela Verdade e a Justiça no Cotidiano
Atualmente, estamos passando o país a limpo para construir uma nação alicerçada na transparência e na verdade. Afinal, a verdade age como uma vacina: ela cria anticorpos contra a mentira.
A História do Brasil é construída no cotidiano. Foi assim que chegamos a um momento histórico recente em que o cidadão, antes atônito, viu mensaleiros irem para a cadeia. Neste país, onde essa “sofisticada organização criminosa” destinada a comprar votos de parlamentares no Congresso parecia inatingível, a justiça começou a ser feita. Agora, o que falta é a fila andar.

Autora
Selma Sueli Silva é criadora de conteúdo e empreendedora no projeto multimídia Mundo Autista D&I, escritora e radialista. Mestranda em Literatura pela UFPel, é também especialista em Comunicação e Gestão Empresarial (IEC/MG). Além disso, ela atua como editora no site O Mundo Autista (Portal UAI) e é articulista na Revista Autismo (Canal Autismo). Autora de livros como “Minha vida de trás para Frente“(2017) e “Camaleônicos” (2019). Ela também é youtuber dos canais “Mundo Autista” e “Selma & Sophia“.
Em 2019, Selma recebeu o prêmio de Boas Práticas do programa da União Europeia Erasmus+. Além dele, ganhou Prêmio Microinfluenciadores Digitais 2023, na categoria PcD. E é membro da UNESCOSOST movimento de sustentabilidade Criativa, desde 2022. Como crítica de cinema, é formada no curso “A Arte do Filme”, do professor Pablo VIllaça. Também é mentora em “Comunicação e Diálogo” para comunicação eficaz e um diálogo construtivo nos Relacionamentos Interpessoais, Sociais, Familiares, Profissionais e Estudantis.
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