Primeiro as Damas sofre do mal de ser um filme de uma piada só: a do executivo machista que se vê preso em uma realidade na qual os papéis de gênero são invertidos. A trama acompanha Damien Sachs, um homem elegante e sexista que, após bater a cabeça, acorda em um universo paralelo onde as mulheres detêm o poder e os homens são subjugados. Damien torna-se um funcionário desvalorizado e assediado na agência de publicidade onde antes costumava mandar. Já Alex, outrora uma mãe solteira oprimida, ressurge como uma executiva implacável no topo da hierarquia corporativa.
Execução Falha e a Superficialidade do Roteiro de Primeiro as Damas
Em tese, essa premissa parece o cenário ideal para uma comédia screwball inteligente e divertida, com ritmo ágil, muitas piadas por minuto e toques de romance que poderiam conferir maior charme e emoção à narrativa. Na prática, contudo, a execução não consegue ir além da premissa inicial. Esse problema fica evidente logo na construção de mundo simplista, que se apoia em visões rasas e estereotipadas sobre machismo e misoginia. Dessa forma, desperdiça a chance de discutir com profundidade os papéis de gênero tão debatidos no mundo contemporâneo.
Comédia Repetitiva em Primeiro as Damas: Quando a Piada Perde a Graça
A veia cômica da história também acaba comprometida. O único aspecto que consegue arrancar alguns sorrisos são as brincadeiras com expressões do cotidiano, palavrões e nomes de marcas. Todas, aliás, derivadas do conceito central do filme, mas repetidas à exaustão ao longo dos parcos 93 minutos de projeção. Sem situações que fujam do óbvio ou do repetitivo, as transformações dos personagens falham em convencer ou despertar interesse.
Talentos Desperdiçados: O Desempenho do Elenco
Mesmo Rosamund Pike, uma atriz tão afiada em sátiras inteligentes como Saltburn, não tem muito o que fazer com as duas versões de sua personagem. Isso porque ambas são pouco desenvolvidas, principalmente no mundo real, onde falta contexto e densidade para sustentar o arco do papel. Afinal, conhecemos Alex apenas pela superfície em sua vida pregressa ou pelo estereótipo do mundo invertido. Contudo, jamais temos acesso real à sua história, personalidade e motivações.
O protagonismo fica a cargo de Sacha Baron Cohen. Embora tenha levado dois Globos de Ouro por sua hilária caracterização como Borat, ele nem sempre convence em comédias de molde mais tradicional, a exemplo deste longa e de O Ditador. Portanto, falta aqui a acidez característica de seus melhores trabalhos e um pouco mais do absurdo que costuma fazer seus personagens decolarem. Como resultado, Cohen não consegue provocar empatia, tampouco percorrer um arco que seja envolvente e agradável de acompanhar.
Avaliação
Vídeo – Primeiro as Damas

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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