Preciso parar de me justificar - O Mundo Autista
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Preciso parar de me justificar

Mulher autista diante da audiência se sente desconfortável

Preciso parar de me justificar para não entrar em crise. Enquanto o "meltdown" é uma crise externalizada, com gritos e agitação, o "shutdown" envolve um desligamento emocional e físico. Foto: IA

Preciso parar de me justificar. Para pensar, eu me distancio de mim para enxergar melhor, assim, como se fosse outra pessoa. Então, começo a repassar aquela manhã diante de meus olhos: ela percebeu tarde demais que não havia fronteira. O projeto parecia, à primeira vista, acadêmico: a poesia de autores autistas como possibilidade de ampliar o entendimento da neurodiversidade, na cidadania, na inclusão, até no próprio saber médico. Um tema legítimo, potente, necessário. Mas não era neutro.

Assim, a frase saiu como quem pisa em falso, não no chão, mas em si mesma. Quando viu, já não apresentava um projeto. Já não organizava ideias. Já não sustentava a distância segura entre quem observa e o que é observado.

A passionalidade no autismo traz a necessidade de se justificar

Ela falava e, ao falar, se abria. Uma exposição involuntária, íntima demais para aquele ambiente onde o esperado era argumentar e não confessar. Mas, ao falar desses autores, poetas autistas, ela não falava apenas de textos poéticos. Falava de modos de existir. De sensibilidades que o mundo insiste em corrigir. De linguagens que não cabem na norma e que, por isso, tantas vezes são lidas como erro, excesso ou inadequação.

Ela falava, sim. Falava dela. E havia um detalhe, quase invisível, ela não estava fora disso. Nunca esteve. Talvez por isso a voz tenha escorregado do argumento para a experiência sem pedir licença. Talvez por isso, ao invés de analisar, ela tenha começado a se traduzir.

E quando percebeu, já era tarde. Uma parte dela assistia de longe, com um desconforto crescente, quase físico: “Pare”, queria gritar. Mas havia algo mais forte do que o constrangimento. A urgência de se explicar. Não exatamente o projeto, mas se explicar dentro dele. Como se precisasse garantir, esclarecer até, que o que parece excesso… tem história. Que isso que pode soar inadequado… é tentativa.

Muita justificativa expõe a pessoa autista

Palavra por palavra, foi se despindo sem querer. Não de roupas, mas de defesas. E ninguém pediu ou sequer exigiu aquela exposição. Talvez ninguém tivesse interpretado sua fala com a dureza com que ela mesma interpretava. Mas ainda assim aconteceu. Quando terminou, o mundo não desabou. A aula seguiu. As vozes continuaram ocupando seus lugares. Nada, externamente, justificava o tamanho de seu abalo. Mas por dentro, algo tinha desabado. Como uma estrutura antiga que, ao menor deslocamento, revela a fragilidade que sempre esteve ali.

A sensação veio depois, como sempre, aliás. A boca amarga. O corpo exausto. A vergonha tardia, que chega quando já não há mais o que recolher. E então, a pergunta. “Por que eu preciso me justificar?” Um questionamento recorrente, que atravessa o tempo com a mesma insistência com que ela mesma atravessa os ambientes: tentando se ajustar, se explicar, se antecipar ao olhar do outro. Aquele “outro social”, a quem ela deseja oferecer o “Eu lírico.”

Autista precisa de nota de rodapé?

Acontece de um jeito, como se existir, do jeito que ela existe, pedisse nota de rodapé. Entretanto, ela aprendeu (?), e isso talvez seja o mais cruel, que ela não precisa se explicar. Sabe que não cometeu nenhum erro objetivo. Mas saber não desfaz o sentir. E sentir, nela, não aceita argumento. Há uma espécie de memória no corpo que não acompanha o raciocínio. Uma memória antiga, persistente, que associa exposição ao risco. Diferença a inadequação. Silêncio do outro a julgamento.

E então ela se antecipa. Se explica. Se oferece antes de ser recusada. E se cansa. “Estou cansada de mendigar afeto”, pensa. E quase no mesmo instante, o pensamento racional rebate. Afinal, ela não acredita nessa carência, em uma necessidade real. Mas muitas vezes, se percebe vulnerável em contextos sociais, atravessada por uma necessidade quase física de pertencimento, como se a ausência dele fosse uma ameaça concreta.

Mas o corpo insiste. Insiste na solidão que aparece quando ela não consegue ser seu próprio apoio. Quando sua versão forte falha. Quando não há chão interno suficiente para sustentar o simples fato de estar ali, sendo, existindo.

A segurança do lar dispensa a necessidade de se justificar

Chega em casa com cuidado. Não quer que a filha perceba. Como se conter o transbordamento ainda fosse uma forma de dignidade. Ou de proteção. Ou de amor. Mas o corpo não negocia. A dor no peito não é metáfora. É concreta. Como se algo tivesse, de fato, se partido. Não de forma dramática, mas silenciosa, íntima, quase imperceptível.

Ela se senta. Precisa do conforto de seu cantinho no sofá. Respira. E, pela primeira vez desde que tudo começou a escapar, não tenta se explicar. Nem para os colegas. Ou para o projeto. Nem para si mesma. Fica apenas com o que há. A dor. O cansaço. A pergunta que não passa.

Preciso parar de me justificar

E talvez, só talvez, haja um outro começo possível ali. Um em que ela não precise sair de si para ser compreendida. Ou em que falar de poesia autista não exija que ela se dilua junto. E, ainda, um dia em que existir não venha sempre acompanhado de justificativa.

Mas, por enquanto, isso ainda é só um vislumbre. E ali, sentada, com a dor física do coração partido, ela percebe que ainda é processo o aprendizado da desafiadora tarefa de não se explicar a todo momento. Foi quando ela teve a certeza de que precisava parar de falar para parar de se justificar. Ela iria se escutar mais sem ter de, necessariamente, se corrigir.

Selma Sueli Silva é criadora de conteúdo e empreendedora no projeto multimídia Mundo Autista D&I, escritora e radialista. É também especialista em Comunicação e Gestão Empresarial (IEC/MG). E mestranda em Literatura (UFPel). Além disso, ela atua como editora no site O Mundo Autista (Portal UAI) e é articulista na Revista Autismo (Canal Autismo). Em 2019, recebeu o prêmio de Boas Práticas do programa da União Europeia Erasmus+. Prêmio Microinfluenciadores Digitais 2023, na categoria PcD. E é membro da UNESCOSOST movimento de sustentabilidade Criativa, desde 2022. Como crítica de cinema, é formada no curso “A Arte do Filme”, do professor Pablo VIllaça. É mentora para uma comunicação eficaz e um diálogo construtivo nos Relacionamentos Interpessoais, Sociais, Familiares, Profissionais e Estudantis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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