Por Que Alguns Autistas Têm Dificuldade em Superar Términos? Quando Ariana Grande lançou o videoclipe de “we can’t be friends (wait for your love)”, ela resgatou a premissa dolorosa do filme *Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças*. Este longa-metragem tem como mote a fantasia de passar por um procedimento clínico para apagar de vez as memórias de um amor que acabou. A música, então, revela o luto agudo de quem percebe que a amizade pós-término seria uma ilusão. Esta é uma metáfora romântica potente sobre a dificuldade de seguir em frente. Para o cérebro autista, além disso, a dificuldade de esquecer pode ser ainda mais intensa por razões neurológicas.
A Ilusão da Amizade Pós-Término no Cérebro Autista: Por Que Alguns Autistas Têm Dificuldade em Superar Términos?
O senso comum nos ensina que o tempo cura tudo. Que a dor do fim de um relacionamento, com os meses, vai desbotando como uma fotografia esquecida no sol, até que o ex-parceiro se torne apenas uma lembrança difusa. Mas o que acontece quando a arquitetura do cérebro tem a tendência de arquivar as informações, analisá-las e, ainda, focar nelas com uma intensidade brutal?
O Que é Monotropismo e Como Ele Afeta o Hiperfoco e Por Que Alguns Autistas Têm Dificuldade em Superar Términos?
Para entender o impacto de um término na vivência autista, é preciso primeiro olhar para o conceito de monotropismo. Proposta pelas pesquisadoras autistas Dinah Murray e Wenn Lawson, a teoria do monotropismo explica que cérebros neurodivergentes tendem a canalizar uma quantidade massiva de atenção e recursos cognitivos para um número reduzido de interesses por vez. Então, é como viver em um túnel de atenção. Assim, tudo o que está dentro do foco ganha cores vívidas, detalhes em alta resolução e dedicação absoluta. Enquanto isso, o resto do mundo entra em modo de espera.
Para muitos de nós quando nos apaixonamos, a outra pessoa raramente é apenas um romance casual. Ela vai para dentro desse túnel e se torna o nosso “interesse especial”. Amar, nesse contexto, vira um exercício de imersão. A linguagem do amor passa a ser aprender os padrões dessa pessoa e decifrar os silêncios dela. Além de mapear as manias do parceiro com os mesmos rigor analítico e avidez que eu, por exemplo, me dedico à dedicação de um filme ou livro em minhas análises. Dessa forma, o parceiro se torna a nossa narrativa favorita. E é a presença dele o que faz o barulho caótico do mundo externo abaixar o volume.
Ruminação Autista: O Loop Infinito de Lembranças e Análises
No entanto, o colapso acontece quando o relacionamento chega ao fim. Além do coração partido, acontece uma espécie de falha sistêmica. Portanto, há uma interrupção violenta do fluxo cognitivo. Isso ocorre porque o objeto central do hiperfoco saiu da sua vida, mas ninguém avisou o seu sistema nervoso. E é aqui que o refrão de Ariana, a constatação de que “nós não podemos ser amigos”, ganha contornos de pura sobrevivência. Afinal, o jogo social neurotípico de transitar na área cinzenta entre o “ex-amor” e o “conhecido simpático” pode ser, para alguns, insustentável. Afinal, o cérebro monotrópico exige clareza e previsibilidade. Então, ou a pessoa é o centro do sistema, ou ela precisa estar completamente fora dele. A ambiguidade de uma amizade de fachada, portanto, é uma sobrecarga emocional difìcil de processar.
Dessa forma, no vácuo deixado por essa ausência de clareza, entra a ruminação. Como a mente não consegue simplesmente “trocar de canal” e redirecionar a atenção para fora do túnel, ela começa a rodar o mesmo programa em um loop infinito. Assim, a mente reprisa as últimas conversas, os últimos gestos, o exato milissegundo em que a dinâmica mudou. A ruminação autista, portanto, é um processo exaustivo de varredura. Revisamos cada cena procurando um erro de continuidade no roteiro. Fui literal demais? Não entendi um subtexto social crucial? Faltou decodificar alguma regra não dita? O cérebro tenta resolver o término como se fosse um quebra-cabeça lógico. E acredita que a análise exaustiva trará alívio. Mas, isso não acontece.
Contato Zero: O Único Protocolo de Segurança Possível
A experiência do monotropismo é que a atenção só se desloca quando é capturada por uma força gravitacional maior. Até que o sistema reinicie de vez e o túnel de atenção encontre um novo hiperfoco para habitar, a única saída é abraçar a ausência de contato. Aceitar que não podemos ser amigos, então, é pura e simplesmente, o único protocolo de segurança capaz de manter a mente inteira.
Nota: O autismo é um espectro e cada vivência é única (meus próprios pais são ex-parceiros e grandes amigos!). Este post não é uma regra universal, mas sim um recorte baseado em vivências e estudos, feito para abraçar e refletir sobre as realidades possíveis para muitas mentes autistas.
Carrossel

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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