Em setembro de 1976, a série As Panteras estreava nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, ela chegou à Rede Globo em março de 1977, ocupando a faixa das 22 horas. Eu aguardava essa estreia com uma ansiedade enorme. Havia muita propaganda na época, e eu ficava alucinada, pois a série já havia conquistado a minha simpatia antes mesmo de ir ao ar.
O Sucesso da Estreia: A Chegada de As Panteras ao Brasil
Lembro-me de que, às sextas-feiras, eu seguia um verdadeiro ritual. Era como se, às 22 horas, algo muito importante fosse acontecer na minha vida. Tudo o que eu fazia naquele dia ganhava um brilho especial, pois, por mais cansada que eu estivesse, às dez da noite eu finalmente me encontraria com Sabrina Duncan. Interpretada por Kate Jackson, ela era a pantera que se sobressaía pela inteligência e estratégia, atuando até a terceira temporada (sendo substituída depois por Shelley Hack e Tanya Roberts).
O Trio Inesquecível de As Panteras: A Dinâmica de Sabrina, Jill e Kelly
O trio original também contava com Farrah Fawcett no papel de Jill, que participou apenas da primeira temporada, mas foi um estrondo de sucesso. Na série, ela representava o carisma e o magnetismo. Embora sua beleza estonteante fosse o grande foco dos padrões da época, é justo dizer que todas as panteras eram lindíssimas. A terceira integrante, Kelly Garrett, interpretada por Jaclyn Smith, foi a única a participar de todas as cinco temporadas e dos 115 episódios. Ela era o ponto de equilíbrio e conciliação do grupo. Cada uma tinha uma função vital; a dinâmica simplesmente não funcionaria se faltasse alguma delas.
Muito Além da Beleza: O Protagonismo Feminino na Década de 70
Mas o que mais importa, de fato, é a lembrança de como essa série ecoou no coração, no gosto e na formação daquela menina de 13 anos. Pela primeira vez, eu me identificava com personagens femininas pelo lado do protagonismo, da articulação e da ação. A série era baseada em crime, drama, mistério e muita ação — coisas que eu sempre adorei. Aquelas policiais, que antes eram desperdiçadas em funções burocráticas, foram recrutadas por Charlie, o chefe que nunca aparecia, mas distribuía as missões por meio de Bosley.
Representatividade e Quebra de Paradigmas na TV Clássica
Como uma menina crescendo naquela época, eu achava muito interessante não ver a “força” concentrada nas figuras de Charlie ou Bosley. Para mim, quem realmente definia o resultado e alcançava os objetivos eram as três mulheres. Charlie era apenas quem captava os casos, e Bosley, quem os distribuía. Os criadores da série certamente incluíram elementos para agradar à voz masculina reinante da época — como o título original (Charlie’s Angels, os “Anjos” de um homem), a pouca diversidade e a forte sensualidade —, mas aquilo não me importava. Isso pode ter sossegado o olhar masculino, mas o que eu enxergava eram mulheres inteligentes, que lutavam, elaboravam estratégias e frequentemente derrotavam homens acostumados a levar a melhor. Isso contrariava tudo o que reinava até então. Para mim, era algo inovador e que me representava. Fui educada pela minha mãe para almejar o meu espaço no mundo, como ser humano, independentemente da figura masculina. As Panteras me mostraram que isso era possível.
O impacto disso na minha vida foi profundo. Eu via naquelas mulheres muito mais do que a mídia costumava retratar. Nos jornais da época, líamos sobre o trágico caso de Doca Street, que assassinou Ângela Diniz na minha cidade, Belo Horizonte, e foi inicialmente absolvido, simplesmente porque ela “ousou” ser uma mulher livre. Para mim, As Panteras traziam um senso de resgate, como se fizessem justiça a tantas “Ângelas”. Eu vivia em uma realidade machista com a qual não me identificava, e aquelas personagens acenderam a minha esperança. Percebi que nós, mulheres, podíamos ser mais. Obviamente, a sociedade deu outros passos depois, abraçando a diversidade e quebrando o estereótipo de que o valor da mulher está atrelado à beleza, mas, naquele momento, a série foi um passo fundamental.
50 Anos Depois: O Legado de As Panteras para Várias Gerações
A empatia era tão grande que a dinâmica do trio acabou se projetando na minha própria casa, já que éramos três irmãs. Confesso que eu queria ser a Sabrina Duncan, pois admirava demais a sua mente estrategista. No entanto, na nossa brincadeira de divisão de papéis, a Sabrina acabou sendo representada pela minha irmã mais velha, que era a pessoa que admirávamos e que nos ajudava a ter uma leitura do mundo. O papel da beleza magnética e chamativa de Jill ficou com a minha irmã caçula. E eu assumi o papel do equilíbrio e da conciliação de Kelly (Jaclyn Smith). Amadurecendo, percebo que isso fez todo o sentido: desde criança, sempre tive a tendência de ser a conciliadora, de buscar o caminho do meio e fugir dos extremismos. A beleza externa era o de menos, pois o que realmente brilhava nelas era a atitude que vinha de dentro para fora.
Neste ano, a série completa quase 50 anos e, sem dúvida, marcou a minha formação. Naquela época, eu não tinha acesso (nem interesse) às fofocas e disputas de bastidores que vemos hoje; só fui descobrir esses detalhes muito tempo depois. A única coisa que eu realmente queria era que chegasse a sexta-feira, o início do meu fim de semana de descanso, para sentar em frente à TV às 22 horas. Aquele encontro semanal com as Panteras era a confirmação de que sim, as mulheres podiam ser tudo o que elas determinassem e quisessem ser.
Avaliação

Selma Sueli Silva é criadora de conteúdo e empreendedora no projeto multimídia Mundo Autista D&I, escritora e radialista. Mestranda em Literatura pela UFPel, é também especialista em Comunicação e Gestão Empresarial (IEC/MG). Além disso, ela atua como editora no site O Mundo Autista (Portal UAI) e é articulista na Revista Autismo (Canal Autismo). Autora de livros como “Minha vida de trás para Frente“(2017) e “Camaleônicos” (2019).
Em 2019, Selma recebeu o prêmio de Boas Práticas do programa da União Europeia Erasmus+. Além dele, ganhou Prêmio Microinfluenciadores Digitais 2023, na categoria PcD. E é membro da UNESCOSOST movimento de sustentabilidade Criativa, desde 2022. Como crítica de cinema, é formada no curso “A Arte do Filme”, do professor Pablo VIllaça. Também é mentora em “Comunicação e Diálogo” para comunicação eficaz e um diálogo construtivo nos Relacionamentos Interpessoais, Sociais, Familiares, Profissionais e Estudantis.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.


Adorei o texto, realmente As Panteras marcou época.
Eu também adorava. Foi um tempo incrível.