Penélope também vive uma odisseia no filme de Christopher Nolan, assim como ocorre no poema épico de Homero.Afinal, a personagem de Anne Hathaway atravessa o tempo. O marido parte para a Guerra de Tróia, então duas décadas se passam e ela permanece no palácio. Contudo, ocorre uma travessia silenciosa. Dessa forma, enquanto o herói enfrenta monstros mitológicos e a fúria dos deuses, Penélope sobrevive a vinte anos cercada por homens que tentam convencê-la de que a própria história já acabou.
As narrativas de Christopher Nolan que exploram a dilatação do tempo costumam revelar o impacto dos anos sobre os vínculos humanos. Assim, pessoas se afastam e vidas inteiras transcorrem. Além disso, promessas precisam resistir a lacunas que parecem maiores do que a própria existência.
Penélope e a Odisseia de Christopher Nolan: A tecelagem do próprio destino
A meu ver, a palavra que melhor define Penélope é autoria. Afinal, a corte e os pretendentes exigem que ela declare o marido morto. Assim, ela deve escolher um novo rei. E, com isso, aceitar a imposição de um roteiro para o futuro dela, da família e do reino. No entanto, ela se recusa a fazer isso. E não o faz por não aceitar que terceiros determinem o fim de sua narrativa. Aliás, o tear símboliza essa decisão. De dia, o tecido avança, em concessão ao protocolo e à pressão externa. Contudo, de noite, o fio se desfaz. Isso parece representar a anulação deliberada da certeza alheia e a suspensão do tempo linear imposto pelos pretendentes.
Existe, dessa forma, um ato de insubordinação em reivindicar o próprio tempo. Isso porque Penélope recusa os prazos sociais para o fim do luto e do amor. Com isso, ela sustenta o direito de decidir quando vai parar de desejar. Dessa forma, a mulher mantém o controle do próprio tempo e destino.
Humanidade além do mito
Vinte anos acumulam afetos como cansaço, fúria, solidão e frustração. Além disso, existe o peso de administrar um reino sem, no entanto, ter tanta autonomia para isso. A interpretação densa dessa figura se dá pela quase sempre brilhante Anne Hathaway. A atriz, que definiu a personagem como um “vulcão”, constrói que a dor e a passagem dos anos transformam quem fica tanto quanto o fazem com quem parte.
A trajetória de Anne Hathaway
Anne Hathaway venceu o Oscar por Os Miseráveis, quando nos brindou com um desempenho de tirar o fôlego como a sofrida Fantine, incluindo uma emocionante interpretação da música mais conhecida do musical, I Dreamed a Dream. Aquela obra já mostrava que sua capacidade de moldar a narrativa de um longa-metragem não passava por tempo de tela. Isso porque a ação de Fantine, praticamente, se encerra após a primeira meia-hora daquela ópera de quase 180 minutos. No entanto, o impacto e a transformação do encontro de sua personagem com o protagonista permaneciam no cerne de tudo o que vinha depois.
Hathaway, além disso, é uma atriz bastante versátil. Ela surgiu como a protagonista doce de contos de fadas juvenis como O Diário da Princesa e Uma Garota Encantada. Depois disso, provou maturidade artística em papéis grandes e pequenos, em dramas como O Segredo de Brokeback Mountain e O Casamento de Rachel. Brilhou, também, na comédia dramática O Diabo Veste Prada 1 e 2, assim como no remake de O Agente 86, provando-se como atriz cômica. Foi, também, a Mulher-Gato em filmes do Batman. E ainda se destacou em um papel coadjuvante no filme de roubo Oito Mulheres e um Segredo. Tirando um As Trapaceiras aqui e uma versão de 2020 de Convenção das Bruxas acolá, seu currículo é ilibado e de tirar o chapéu. Com isso, ela mostra-se a escolha perfeita para dar vida a uma personagem complexa e significativa.
Há, no entanto, uma tensão entre Nolan e Homero. No poema, quando Odisseu retorna, Penélope não acredita nele logo de cara. Ela o testa, e esse gesto mostra que ela é tão inteligente quanto o marido. O homem, que é conhecido pela astúcia, precisa passar pelo teste dela. Contudo, Nolan substitui o mecanismo por outra prova de identidade. Isso tira parte da demonstração do intelecto de Penélope.
Conclusão
De qualquer forma, Odisseu não é o mesmo. Isso porque a guerra atravessou o corpo e a mente dele. Do mesmo modo, a mulher que o recebe envelheceu bravamente. Ela lutou contra as próprias circustâncias. Assim, construiu a própria casca para a sobrevivência. Dessa forma, o reencontro revela-se a constatação madura de duas pessoas mudadas que precisam decidir se ainda se reconhecem. Afinal, Odisseu cruzou o espaço geográfico, mas foi Penélope que sustentou o reino e a possibilidade de ele voltar
Avaliação de A Odisseia: 7/10
Vìdeo – Penélope e a Odisseia de Christopher Nolan

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

