Para minha vó. Hoje é dia das vovós. Cresci lendo e ouvindo que as avós eram as senhorinhas fofas, de roupas sérias, mesmo que estampadas em pequenas florezinhas, em preto e branco. Coloridas, só as bochechas. Nunca estavam de mal humor. Sempre recebiam os netos com alegria e um sorriso nos lábios. Os cabelos, amarrados em um coque, eram grisalhos ou brancos.
A minha vó não era assim. Os olhos eram pretos e vívidos. O corpo nem gordo, nem magro. Bonito somente, como todo o resto. Estava sempre atarefada com a casa, os filhos e as netas. Exceto às tardes, antes das 5, quando ela começaria o preparo do jantar. Nesse pequeno hiato de tempo, eu a via, sentada no pequeno sofá da sala. Ela ficava ora olhando pela janela, ora voltando os olhos para a fotonovela da vez, ou o pequeno livro de bolso.

A Força e a Sabedoria de Vó no Dia a Dia
Nessas horas, eu gostava de me aproximar dela, ficar quietinha observando. Ela era minha vovó e minha madrinha. E eu a considerava uma super mulher que cuidava do marido, dos filhos (são nove) e das três netas. Eu e minhas irmãs. E ainda lavava roupa para fora, escondida de meu avô, para as coisas da administração da casa que eram prioridades dela e não necessariamente do meu avô.

Quando ela se dava conta de minha presença, respondia com gosto minhas mil e uma perguntas e me contava coisas das fotonovelas e da vida. Eu adorava ouvir. Era sempre muito sábia, de uma sabedoria diferente da sabedoria de minha mãe e eu nem sabia porquê. Hoje sei que era a sabedoria espelhada diferentes fases da vida. O que para mim era ótimo. Afinal, eu e minhas irmãs éramos de um jeito – crianças, minhas tias, de outro – adolescentes, mamãe adulta e vovó, ah, a vovó era a vovó. Simples assim. Por causa dela e de minha mãe, eu até via a tal vida de gente mais velha, com discreta simpatia.
Comida de Vó: O Sabor Inesquecível dos Domingos em Família
Mas o que havia de espetacular na vovó era a arte de cozinhar. Que ela repassou aos filhos, homens e mulheres, que se interessaram em aprender.
Eu só observava. Pois admirava aquela mulher tão ágil e senhora de si em tudo que fazia. Mais tarde, me surpreendi refazendo alguns pratos, tal e qual eu a vira fazer.
Abençoados eram os domingos que até a sua partida, reuniram a família em torno da maionese, macarrão, arroz branco, feijão fumegante e vermelhinho e galinha ensopada. Uma galinha divina, que tinha um segredindo dela, para ficar tão gostosa.
O café forte e doce, quando misturado à quantia exata do leite ( que recebia uma pitadinha de sal ao ferver), compunha a combinação mais do que perfeita.
O bolo também era docinho. Aliás, ela amava doces, embora fosse uma verdadeira cozinheira da comida salgada. Entretanto, o que cabia no orçamento, pelo menos uma vez ao mês, eram o arroz doce e o pé de moleque que só ela sabia fazer.
Para minha vó: Lições de Vida, Luto e Companheirismo
À medida que eu crescia, passamos a falar sobre as coisas da vida. Meu maior prazer era mantê-la informada das novidades de minhas vida. Afinal, ela me sabia me ouvir, sabia o que dizer e me fazia sentir alguém com quem valia muito um dedo de prosa.

Só a vi chorar uma vez, quando Vicente Celestino morreu. Aprendia ali o valor de um gosto, umas escolha de algo ou alguém para se admirar.
Quando minha bisavó morreu, vovó ficou muito abalada. Perguntou para mim, o que seria dela sem a mãe. Eu olhei em seus olhos, entre surpresa e compadecida e respondi com a sinceridade comum a nossas conversas: “Ah, vozinha, se a senhora, aos 71 anos não sabe a resposta, não serei eu a saber.” E nos abraçamos, acolhendo, uma à outra, nosso desamparo.
A Saudade que Fica: 20 Anos de Memórias Afetivas. Para minha vó
Lá se vão quase 20 anos e ainda me vejo, algumas vezes, pegando o telefone para compartilhar as novidades. O que não me espanta pois ainda a sinto, dia após dia, pertinho de mim.


Selma Sueli Silva é criadora de conteúdo e empreendedora no projeto multimídia Mundo Autista D&I, escritora e radialista. Mestranda em Literatura pela UFPel, é também especialista em Comunicação e Gestão Empresarial (IEC/MG). Além disso, ela atua como editora no site O Mundo Autista (Portal UAI) e é articulista na Revista Autismo (Canal Autismo). Autora de livros como “Minha vida de trás para Frente“(2017) e “Camaleônicos” (2019).
Em 2019, Selma recebeu o prêmio de Boas Práticas do programa da União Europeia Erasmus+. Além dele, ganhou Prêmio Microinfluenciadores Digitais 2023, na categoria PcD. E é membro da UNESCOSOST movimento de sustentabilidade Criativa, desde 2022. Como crítica de cinema, é formada no curso “A Arte do Filme”, do professor Pablo VIllaça. Também é mentora em “Comunicação e Diálogo” para comunicação eficaz e um diálogo construtivo nos Relacionamentos Interpessoais, Sociais, Familiares, Profissionais e Estudantis.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

