A tarefa de dar continuidade a um clássico nunca é simples. Mas Pânico 4 é, se me permitem a ousadia, a primeiríssima e única continuação desta franquia que consegue não apenas igualar a excelência e a inovação da obra original, como — pasmem — chega ao ponto de superá-la em aspectos absolutamente cruciais.
A Abertura Surreal de Boa de Pânico 4
A audácia de Wes Craven já se anuncia nos primeiros minutos de projeção. O quarto filme abre com uma sequência que é, não há outra palavra, esplêndida. É um espetáculo surreal de tão maravilhoso. O roteiro nos banha naqueles diálogos pós-modernos e deliciosamente cínicos, com os personagens dissecando os clichês e tropos dos filmes de terror que, ironicamente, tanto moldaram a própria saga. Ao mesmo tempo, Craven estabelece de maneira cristalina aquele caráter metalinguístico que pulsa, que vive no cerne desses filmes.
E então, Pânico 4 vai nos tecendo em uma teia muito particular. Ele nos envolve com um suspense primoroso, uma ação eletrizante e um humor de uma acidez cortante. É uma combinação que, francamente, raramente vimos ser tão bem executada, tão inspirada dentro desta franquia — e olhem que eu já tenho um afeto profundo por todos esses capítulos.
Pânico 4: True Crime e o Culto Obscuro às Celebridades
Mas o grande triunfo? O ápice deste longa-metragem? A reviravolta.
A revelação de quem está por trás da máscara do Ghostface é, sem a menor sombra de dúvida, a mais icônica, a mais estarrecedora de toda a trajetória de Woodsboro. E ela não está lá por mero capricho do roteiro ou para causar um choque barato, não. Essa revelação serve como um veículo fascinante para discutir temas que, vejam só, estavam anos à frente de seu tempo: a nossa cultura de superexposição, o culto doentio e desmedido às celebridades, a busca voraz por visualizações, e essa nossa mórbida obsessão contemporânea pelo true crime.
É um filme de uma lucidez cortante. É, meus caros, absolutamente imperdível.
Avaliação
Vìdeo – Pânico 4

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

