Sofia Coppola tem uma fascinação muito particular, e muito reveladora, pelos abismos que se escondem por baixo de camadas e camadas de luxo. Em Um Lugar Qualquer — que, veja bem, lhe rendeu um merecido Leão de Ouro em Veneza —, ela volta a esse território que domina como poucos. É, sim, um filme menor se colocado lado a lado com a excelência de sua filmografia autoral, mas que carrega intacto aquele DNA da diretora.
Se na sua obra-prima absoluta, o clássico Encontros e Desencontros (2003), ela já nos mostrava o tédio esmagador que a fama e o dinheiro podem proporcionar, aqui ela isola esse sentimento em um astro de cinema que tem o mundo aos seus pés, mas que não tem a menor autonomia sobre a própria existência.
A Inércia de Johnny Marco em Um Lugar Qualquer
Conhecemos então Johnny Marco, interpretado por um Stephen Dorff que entende de forma muito visceral a letargia desse personagem. Ele é um ator de Hollywood de reputação, digamos, duvidosa, enfurnado no lendário hotel Chateau Marmont para se recuperar de um acidente de trabalho. E a rotina dele é de um marasmo estarrecedor: festas infindáveis, gêmeas fazendo pole dance no quarto e voltas sem nenhum destino na sua Ferrari. É a exaustão pelo excesso.
Até que a vida joga no colo dele a pequena Cleo, sua filha de 11 anos, que passa a visitá-lo com certa frequência. E é aí que o filme ganha o seu coração. Cleo é vivida por uma Elle Fanning que já era, desde aquela época, uma força luminosa na tela. A princípio, Johnny é tateante, incapaz de dar à menina a atenção que ela exige. Mas a presença dela, que não impõe nada, mas simplesmente está ali, começa a desestabilizar a inércia absoluta desse pai.
O Veredito: Onde a Diretora Sofia Coppola Erra e Onde Ela Acerta em Um Lugar Qualquer
Agora, a pergunta de um milhão de dólares: a execução funciona tão impecavelmente quanto nas outras obras da Sofia? A resposta é: não.
E o problema central é que, na tentativa quase desgastante de emular essa banalidade do cotidiano, de nos fazer sentir o tempo se arrastando, a direção pesa a mão. O ritmo se torna excessivamente letárgico, testando a paciência de quem assiste.
Ainda assim — e este é um “ainda assim” muito importante —, quando Um Lugar Qualquer acerta, ele emociona de uma forma formidável. Ele nos mostra como essa transformação minúscula, construída nos detalhes do cuidado de uma filha com um pai à deriva, pode salvá-lo de si mesmo. É de uma ternura imensa, sem render um milímetro sequer à pieguice ou à utopia. E a grande responsável por nos fazer acreditar nisso é, sem dúvida, a presença de Elle Fanning, que injeta vida e uma verossimilhança indispensável a essa narrativa.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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