O Que Sobra do Autista Quando a Máscara Cai - O Mundo Autista
O Mundo Autista

O Que Sobra do Autista Quando a Máscara Cai

Sophia Mendonça debate O Que Sobra do Autista Quando a Máscara Cai: autismo na vida adulta e a busca por aceitação além dos estereótipos.

Sophia Mendonça debate O Que Sobra do Autista Quando a Máscara Cai: autismo na vida adulta e a busca por aceitação além dos estereótipos.

Sophia Mendonça debate O Que Sobra do Autista Quando a Máscara Cai: autismo na vida adulta e a busca por aceitação além dos estereótipos.

O Que Sobra do Autista Quando a Máscara Cai. Falar sobre autismo ainda é, na maioria das vezes, falar sobre nós, e não com a gente. Durante muito tempo, a narrativa a nosso respeito foi sequestrada por um modelo médico que foca unicamente em nossas dificuldades, ignorando nossa pluralidade. Foi com o objetivo de mudar esse lugar de fala que me sentei (virtualmente) ao lado do meu colega, o escritor e ilustrador Bruno Grossi, a convite de Rosana Bastos, para o programa Conversas Inclusivas da PUC Minas.

Como jornalista e mulher autista, trago aqui não apenas os ecos daquela noite de abril, mas uma reportagem sobre o que significa resistir em um mundo que insiste em nos consertar.

A Eterna Negociação com o Mundo e O Que Sobra do Autista Quando a Máscara Cai

Eu tinha cerca de 13 anos quando percebi, com muita clareza, que o mundo não estava preparado para acolher a minha diferença. Naquela época, sob o pretexto de me ensinar “habilidades”, tentaram me impor comportamentos, gestos e interesses que não condiziam com a pessoa que eu era. Eu não queria aprender a ser “normal”. Queria ser aceita por ser uma vida singular. Ali, entendi que a minha vida toda seria uma eterna negociação com o mundo: até que ponto eu devo me adaptar, e até que ponto o mundo precisa se transformar para me acolher?

Bruno Grossi compartilha de um sentimento muito similar, embora com suas próprias nuances. Ele relata que nunca sentiu que pertencia a “turminha” alguma, seja na escola ou no trabalho. “Até hoje eu não sei se sou eu que não encaixo no mundo, ou se é o mundo que não encaixa em mim”, ele confessou. Essa dualidade é a essência da experiência neurodivergente adulta.

O Preço de “Performar a Neurotipicidade” e O Que Sobra do Autista Quando a Máscara Cai

Se há um elo que une quase todos os autistas funcionais e inseridos na sociedade, é o peso colossal do mascaramento, ou o ato de performar a neurotipicidade para ser levado a sério. Eu faço isso quase o tempo todo. Se não o fizermos, qualquer atitude fora do padrão é rapidamente mal interpretada.

O impacto disso na nossa saúde física e mental é devastador. Bruno descreveu a exaustão profunda que sente ao precisar ser sociável, abraçar pessoas e interagir efusivamente em suas palestras nas escolas. “A gente entrega tantas colheres ali naquela situação, que fica exausto o resto da semana”, disse ele, lembrando que, no passado, suas crises não eram de explosão, mas de apagão físico. Afinal, ele chegava a desmaiar por forçar limites que seu corpo não suportava.

Capacitismo e o “Mercado” do Autismo

Nós, autistas adultos, não enfrentamos apenas a invisibilidade; enfrentamos o apagamento ativo e o capacitismo enraizado. Um exemplo muito prático e doloroso ocorreu comigo recentemente: uma acadêmica, mãe de um autista nível 3 de suporte, discordou de um posicionamento meu. Em vez de debater comigo, uma mulher adulta, ela procurou a minha mãe. Sugeriu que minhas opiniões eram fruto de uma “comorbidade mais grave”. É o que chamo de desumanização: a partir do momento em que você tem o diagnóstico, tudo o que você fala vira “distorção do transtorno”. Você perde o direito de simplesmente discordar.

Além do capacitismo cotidiano, há uma crítica urgente que precisamos fazer como sociedade. Hoje, vivemos uma guerra de narrativas na internet. Então, se eu pudesse escrever uma manchete honesta sobre o cenário atual, seria: “Interesses políticos e econômicos invadem a causa autista, mas autistas resistem”.

Há profissionais de saúde que deixaram de olhar para nós com humanidade para nos enxergar como um negócio. Eles lucram com o terrorismo psicológico em cima de pais desesperados, vendendo terapias invasivas, pseudociências e falsas curas. Promovem uma visão onde o autista precisa estar sofrendo o tempo todo, e colocam pais contra adultos autistas. O saldo dessa romantização e mercantilização é um desserviço absoluto à nossa comunidade.

A Educação como Caminho e a Coragem de Ser: O Que Sobra do Autista Quando a Máscara Cai

Para romper com isso, a chave sempre retorna à educação e à comunicação. Na escola, como bem pontuou Bruno, o maior erro ainda é o capacitismo de achar que o aluno autista não dará conta, largando-o no fundo da sala. Para ele, aliás, a verdadeira inclusão passa por Paulo Freire: horizontalidade, sentar junto e construir o mundo a partir da realidade daquele indivíduo, aproveitando seus hiperfocos para construir pontes de aprendizado.

Como escrevi com minha mãe: a lei abre a porta, o afeto convida a entrar, mas é o amor — um amor profissional, com “sangue nos olhos” para adaptar e ensinar — que permite que o aluno permaneça.

No fim das contas, a pergunta que fica é o que ganhamos quando paramos de tentar caber nas expectativas alheias. Para Bruno, que mudou-se da capital para as cidades históricas de Minas Gerais, o prêmio foi o sossego e o respeito aos próprios limites biológicos.

Para mim, que encontrei refúgio e liberdade em Pelotas, no Rio Grande do Sul, o ganho foi resgatar o meu direito mais básico. Isso porque eu fui muito invalidada na vida, inclusive por especialistas, tanto por ser autista quanto pela minha identidade de gênero. Tentar agradar a todos significava não poder ser eu mesma. Hoje, eu só quero ser a garota que sempre fui. Então, o meu maior ganho foi, finalmente, estar confortável na minha própria pele. E essa é uma vitória que nenhum laudo ou estereótipo pode nos tirar.

Vídeo – O Que Sobra do Autista Quando a Máscara Cai

Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments