“Vidas Passadas” é uma comovente história de amor que explora paixões de infância, as complexidades da vida na era digital e os “e se” das vidas não vividas. O filme também aborda a profunda experiência da migração e como ela molda realidades alternativas na mente de quem parte, confrontando o “eu” que poderia ter ficado com o “eu” que buscou um novo futuro no exterior.
De Seul a Nova York: O Reencontro de Duas Almas no filme O que aconteceria “se”? A Beleza Agridoce de Vidas Passadas
O filme se inicia com uma cena enigmática em um bar de Nova York, onde três adultos — dois coreanos e um branco-americano — compartilham um drinque de forma desconfortável. Então, ma voz em off, que instiga a curiosidade do público, especula sobre a identidade dessas pessoas. Em seguida, flashbacks nos transportam para Seul, em 1999, onde conhecemos Na-young (Seung Ah-moon) e Hae-sung (Seung Min-yim), ambos com 12 anos.
Eles são amigos com uma certa tensão romântica, ofuscada pela rivalidade acadêmica. Um “encontro” arranjado pela mãe de Na-young dá a Hae-sung a falsa impressão de que eles foram feitos um para o outro, o que resulta em seu coração partido quando Na-young casualmente anuncia sua mudança para a América do Norte.
O Triângulo Atípico: O Papel de Arthur e a Realidade da Vida Adulta
A narrativa avança para a casa dos 20 anos dos protagonistas. E Na-young, agora Nora (Greta Lee), tornou-se uma escritora em ascensão em Nova York. Hae-sung (Teo Yoo) está cumprindo seu serviço militar e estudando engenharia em Seul. Eles se reconectam via Facebook e Skype, e a intensa emoção de suas conversas cativa o espectador. Assim, a tela transborda com a alegria deles, levantando a questão implícita: eles deveriam ficar juntos? Ou essa conexão é uma idealização de uma amizade de infância?
Mais tarde, já estabelecida em sua prestigiada carreira, Nora recebe Hae-sung em Nova York, que viaja após um relacionamento fracassado. Lá, ele conhece Nora e seu marido, Arthur (John Magaro), um promissor romancista.
O Conceito de In-Yun em Vidas Passadas: Estamos Destinados uns aos Outros?
O grande trunfo de “Vidas Passadas” reside na forma como este longa-metragem, da cineasta estrante Celine Song, extrai sua beleza agridoce do conceito budista de “origem dependente” (In-Yun, em coreano). Esta noção sugere que todos os fenômenos do universo existem em uma rede de relacionamentos de apoio mútuo. Segundo essa visão, nada é sem propósito e nada é desperdiçado.
O filme habilmente entrelaça esses “fios” de interdependência. Com isso, mostra como o universo nutre a vida, incluindo a humana. Ele explora os delicados sentimentos dos relacionamentos em suas diversas fases, desde as paixões infantis até a aparente certeza da vida adulta.
As Vidas Não Vividas: A Melancolia da Imigração em Vidas Passadas
É notável como o filme nos convida a deleitar-nos com as memórias enquanto reconhecemos a perda de elementos da infância, os caminhos que não trilhamos e os relacionamentos que não se concretizaram. “Vidas Passadas” é uma obra sutil que convida à autorreflexão e ao entretenimento, ao acompanhar dois personagens que ilustram como os relacionamentos — sejam eles plenamente realizados ou não — transformam nossas vidas.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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