O que eu vou compartilhar agora pode parecer uma bobagem para a maior parte das pessoas. Na verdade, é o tipo de relato que costuma ser realmente compreendido apenas por quem é autista ou por quem convive de perto com a neurodivergência. É sobre O Paradoxo do Cérebro Autista e as Nossas “Pequenas” Vitórias Cotidianas.
Minha coordenação motora é, para usar um termo sincero, sofrível. Ela está muito abaixo do que seria aceitável ou esperado para uma adulta dita “funcional”. Mas, como sempre ressaltamos aqui no Mundo Autista, ser autista não é estar aquém das outras pessoas. É, fundamentalmente, ter características neurológicas distintas que, ao interagirem com as barreiras de um ambiente construído para neurotípicos, nos trazem uma sensibilidade única — mas também prejuízos cotidianos muito concretos.
A balança invisível das nossas habilidades, O Paradoxo do Cérebro Autista e as Nossas “Pequenas” Vitórias Cotidianas
O cérebro autista frequentemente opera em um compasso de extremos, algo que fica muito evidente quando analisamos as nossas habilidades práticas. Em muitos casos, temos uma capacidade imensa para brilhar com facilidade em desafios complexos. Geralmente, são aqueles que envolvem os temas do nosso hiperfoco ou que exigem um raciocínio lógico e profundo.
Nos casos de Dupla Excepcionalidade — quando o autismo coexiste com as Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) —, o indivíduo é capaz de resolver problemas que demandam um enorme esforço cognitivo e gasto de energia, surpreendendo a todos ao seu redor.
No entanto, essa mesma mente que desvenda complexidades pode não fazer a menor ideia de como se virar em tarefas cotidianas simples. Ações que são automáticas e intuitivas para a maioria da população nos causam um desgaste imenso, mesmo sendo cruciais e constantes em nossa rotina.
O peso do ambiente: sensorial e motor
O autismo não afeta apenas a forma como nos comunicamos; ele envolve alterações sensoriais e motoras profundas. Quando você soma a dificuldade motora de executar uma tarefa ao impacto sensorial do ambiente e ao peso da socialização, cada dia pode se tornar uma batalha árdua.
Para ilustrar isso, trago um exemplo muito pessoal: o uso do hashi.
Eu amo comida japonesa. Consumo com frequência e, em quase todas as vezes, tento bravamente equilibrar os palitinhos (inclusive usando aquelas borrachinhas de apoio). O resultado? Quase sempre acabo me frustrando. No meio de uma pequena bagunça na mesa, acabo cedendo, pedindo desculpas e voltando para o bom e velho garfo e faca.
Isso exige coordenação motora fina, controle de força e foco espacial — habilidades que costumam ser grandes pedras no sapato de muitos autistas.
A vitória no meio do caos
Hoje, no entanto, eu vivi uma experiência diferente. Fui comer em um shopping center. Para quem tem Transtorno do Processamento Sensorial (TPS), shoppings são ambientes hostis: luzes artificiais fortes, cheiros misturados na praça de alimentação, música ambiente, ecos, centenas de vozes conversando ao mesmo tempo. É um ambiente carregado de estímulos que costuma drenar rapidamente a nossa bateria social e nossa capacidade de foco.
Mas, contrariando todas as probabilidades e pela primeiríssima vez na minha vida, o temido episódio com o hashi não aconteceu. Eu consegui comer minha refeição inteira com eles, no meio daquele caos sensorial.
E, dessa vez, tomei uma decisão: nem vou me permitir ponderar se estou “velha demais” para comemorar algo tão banal para a maioria. Fiquei super feliz!
Por que precisamos celebrar? O Paradoxo do Cérebro Autista e as Nossas “Pequenas” Vitórias Cotidianas
Relatos como esse são um lembrete importante para a comunidade autista: nós precisamos normalizar a celebração das nossas próprias vitórias, nos nossos próprios termos. Não meça o seu sucesso pela régua de um mundo neurotípico. Se amarrar o sapato, fazer uma ligação telefônica, tolerar a textura de um alimento novo ou conseguir usar um hashi em um shopping lotado for um desafio vencido, comemore. O gasto de energia que você teve para realizar isso é real e o seu mérito também é.
A neurodiversidade nos ensina que o desenvolvimento humano não é uma linha reta. Conviver com o autismo é aprender a abraçar os nossos hiperfocos grandiosos com a mesma compaixão com que abraçamos nossas dificuldades motoras.
E você? Quais são as suas “pequenas” grandes vitórias diárias que a maioria das pessoas não entende, mas que exigiram um esforço enorme de você? Sinta-se à vontade para compartilhar a sua história e celebrar o seu progresso

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

