O Mundo Autista

O “não” na maternidade atípica

A imagem de uma mulher jovem com luvas de boxe, dando um soco, ilustra a luta quando se tem O “não” na maternidade atípica

O não eu já tenho. Quem nunca ouviu essa expressão? Pois, posso apostar que se fizerem o sequenciamento genético do DNA das mães atípicas, encontrarão essa frase tatuada em nossas moléculas. O não na maternidade atípica, em nosso maternar, foi cruelmente naturalizado.

Na atmosfera real da maternidade atípica é comum o relato de inúmeras mães que intuitivamente perceberam que seu bebê era diferente de outros bebês na mesma faixa de idade. Porém, tão comum quanto é também a afirmação de que essa mãe estava equivocada, que seu bebê iria se desenvolver como os outros, no tempo dele, e que não havia motivo para alarde. “Você está procurando pelo em ovo” ou “Isso é coisa da sua cabeça”, escutamos na família e nos consultórios pediátricos. Tentam nos invalidar.

A mãe conhece o filho melhor que ninguém

Nós mães desenvolvemos um olhar muito apurado em relação aos filhos. Afinal, constantemente, somos as principais atuantes nos cuidados básicos das crianças. Isso, quando não somos as únicas, certamente. Passamos tanto tempo presentes ao lado do bebê, fazendo a leitura não verbal do recém-nascido que ainda não fala mas, comunica, que aprendemos no dia-a-dia a interpretá-lo.

Nessa interação diária é possível levantarmos alguns indícios de um desenvolvimento atípico do nosso bebê. Mesmo não sabendo nomeá-los como sinais autísticos. À medida que ocorre a progressão da idade, mais fora da curva é a evolução de nossos filhos.

Maternidade atípica e a mãe invalidada

Arthur, por exemplo, nasceu prematuro. Antes de um ano de vida, chamava a atenção por seu olhar sol poente. Havia muito líquido em sua caixa craniana. Além de uma hipotonia muscular nos seus olhos. Era um bebê que não se conectava comigo durante a amamentação.

Falou tardiamente, antes dos três anos só balbuciava. Assim, era bastante irritado, Entretanto, ao mesmo tempo, não chorava quando acordava sozinho no berço, como geralmente acontece. Vários outros sinais, ao longo do tempo foram surgindo. Mas foram todos ignorados pelos médicos, apesar de minha intuição de mãe me dizer que eu deveria investigar.

O não na maternidade atípica, machuca

O não eu já tinha, então, só restava continuar acreditando em mim mesma. Então, eu era a minha única aliada. Porém, eu não sabia o que me aguardava. Ou seja, eu nunca havia ouvido falar de autismo. Na minha infância, não conheci nenhuma criança autista. Assim, não brinquei nem estudei com outros autistas, infelizmente. Onde eles estavam? Por que o autismo não era um assunto presente nas rodas de conversa? Acho que é porque como escreveu Marcos Bagno: “É difícil para cada um de nós suportar a existência dos outros, tolerar a convivência com tantos não-eu.”

Não sei precisar quantos nãos eu ouvi. Negativas de profissionais da área da saúde que deveriam validar minhas suspeitas. Aliás, validar e oferecer um olhar mais humanizado para o meu filho, que gritava por socorro. Ele precisava de intervenção multidisciplinar. Ele estava perdido no contexto social, não interpretava os códigos sociais e não fazia a leitura facial.

Ao passo que, muita gente falando ao mesmo tempo, sons abruptos como da buzina, do foguete, diferentes odores, texturas, sabores, luzes fortes e coloridas, causavam sobrecarga sensorial. De forma tão intensa, ao ponto de acelerar seus batimentos cardíacos.

Maternidade e filho atípicos

Para meu filho, estar no mundo era desafiador. Imagine participar de um mundo em que você se sente ameaçado a todo momento? Pior ainda, não saber que tudo o que você sente tem nome. Aliás, tem muito mais. Tem recursos para mediar sua inclusão social, histórica, política, afetiva e, posteriormente, escolar e profissional.

Mas desistir nunca foi uma opção. Como a Psiquiatra Dra. Nise da Silveira, eu acredito na revolução pelo afeto. E por falar nela, no CCBB em Belo Horizonte, é possível visitar a exposição em sua homenagem, inaugurada no último dia 08. Confira, aqui.

Dessa forma, pelo afeto, nós, descobrimos o diagnóstico de autismo de Arthur. Isso, depois de 10 anos andando no labirinto da ignorância e prepotência médica. Meu filho, não é estranho, não é louco e não precisa ser institucionalizado. Ele é uma pessoa sensível e com um potencial criativo enorme! Um artista visual talentoso, com um futuro promissor!

Roberta Colen Linhares, natural de Belo Horizonte – MG, casada, mãe de Arthur e Isis, contadora de histórias pelo Instituto Aletria, e atualmente é graduanda do Curso de Letras na PUC Minas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Manuela
4 meses atrás

Que relato emocionante. Criar filhos já é um grande desafio, lendo a sua história só posso te parabenizar por toda a luta. E uma coisa tb aprendi na maternidade – AFETO, como ele é importante!