Na convivência diária, o diálogo é muitas vezes a nossa principal ferramenta de conexão. Por isso, sou uma grande defensora da troca de ideias e do poder do debate. No entanto, o sucesso da comunicação não depende apenas do que se fala. Mas de como e, inclusive, de quando se fala. Portanto, é preciso saber o momento certo para o diálogo.
O desafio da concretude das emoções
Muitas vezes, uma pessoa autista pode defender o seu ponto de vista de maneira intensa, eloquente e altamente emotiva. Em casos mais agudos, esse estado de exaltação pode até configurar uma crise. Então, o instinto comum de quem escuta costuma ser o de oferecer um contraponto racional para acalmar ou orientar a situação. Contudo, esse definitivamente não é o momento ideal.
Durante essas circunstâncias, a mente autista já lida com um nível extremo de desorganização e sobrecarga. O esforço despendido para traduzir um turbilhão de sentimentos abstratos para a concretude da linguagem — e assim conseguir compreender o próprio momento — é gigantesco. Quando há interrupções ou tentativas de racionalização externas nesse instante exato, é muito provável que a pessoa interprete a intervenção de forma equivocada. Isso pode agravar a desregulação emocional e piorar a situação de crise.
A importância do timing na comunicação e do momento certo para o diálogo
Isso não significa, de forma alguma, subestimar a capacidade intelectual da pessoa autista. Pelo contrário! Em casos diversos, ela tem, sim, total condição de manter conversas profundas e analíticas. O segredo mora na leitura correta do contexto. Assim, é fundamental aguardar até que a pessoa esteja mais tranquila e preparada mentalmente para absorver diferentes perspectivas.
Portanto, o erro oposto também é altamente prejudicial. Por exemplo, ao presenciar uma crise, muitas pessoas podem desistir e pensar: “ela não tem condição de conversar, não manterei mais nenhum nível de diálogo“. Agir dessa forma tira de ambas as partes a chance de crescimento mútuo e a oportunidade de encontrar denominadores comuns por meio do diálogo.
Uma reflexão para todos nós
Essa dinâmica é válida para interações com autistas de todas as idades; sejam crianças, adolescentes ou adultos. É também uma regra de ouro para as próprias pessoas autistas que convivem com outros indivíduos neurodivergentes.
Com frequência, esbarramos em nossa própria rigidez cognitiva. Afinal, ela é algo que é sempre mais fácil de notar no outro do que em nós mesmos. Olhar a situação “de fora”, portanto, exige empatia e prática. Dessa forma, o grande ensinamento para preservar os laços e tornar a comunicação efetiva é simples e poderoso: aprenda a deixar a poeira baixar. Só depois de o cenário se acalmar é que a ponte do diálogo poderá ser construída com real sucesso.
Vídeo – “O momento certo para o diálogo”

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

