O longa-metragem “Juntos” utiliza uma premissa simples, mas de execução implacável, para explorar as profundezas e os perigos da co-dependência amorosa. Assim, o grande trunfo da obra reside na forma como transforma metáforas comuns sobre relacionamentos — como a ideia de “duas metades que se completam” ou “identidades que se misturam” — em uma experiência crua, literal e intensamente física.
A Metáfora Literal: Quando duas metades se tornam uma só carne
Então, o filme materializa o peso emocional de uma relação simbiótica. Dessa forma, se consolida como uma obra perturbadora e, por vezes, difícil de assistir. No entanto, é exatamente esse desconforto que o torna tão fascinante.
Body Horror e Desconforto: A estética da simbiose em “Juntos”
“Juntos” não poupa o espectador ao traduzir a dependência emocional para a linguagem do terror corporal. Com isso, a direção de Michael Shanks acerta ao tornar a abordagem visual da metáfora a mais concreta possível. Alguns dos elementos que mais geram impacto incluem cenas intensas em que os corpos dos personagens literalmente se grudam durante momentos de intimidade, como beijos.
Além disso, há a introdução angustiante de elementos viscerais, como a ideia do uso de um serrote para tentar separar os protagonistas.
Química Real: Alison Brie e Dave Franco em performances extremas no terror corporal “Juntos”
Tudo isso sem falar na abordagem pesada e visualmente incômoda do sexo. Isso porque “Juntos” distancia-se do romantismo para focar na desfiguração das identidades.Toda essa experiência sensorial é sustentada por desempenhos extremamente físicos.
O casal principal, Alison Brie e Dave Franco, entrega uma atuação carregada de tensão. Os desempenhos se beneficiam pelo fato de os atores serem parceiros na vida real, o que fortalece a química em tela.
Filosofia e Sangue: Do “Banquete” de Platão ao Serrote
Para além do choque visual, “Juntos” encontra espaço para aprofundar a narrativa por meio da filosofia. O roteiro é muito feliz ao resgatar conceitos de Platão, provavelmente aludindo ao Mito do Andrógino no livro “O Banquete”, para justificar a mitologia por trás da trama. Essa camada extra de significado enriquece a história e dá estofo ao horror corporal apresentado.
No mais, “Juntos” é um filme conceitualmente simples, que aposta quase todas as suas fichas em sua premissa central para capturar o espectador e forçá-lo à reflexão. Ele pode não agradar a todos os públicos, e as escolhas extremas certamente afetarão alguns espectadores. Contudo, como obra cinematográfica, atinge seu objetivo principal: é impossível sair indiferente da sessão.
Avaliação
Vídeo – “Juntos” (2025)

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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