“O Dilema da Evolução: Tecnologia, Humanidade e o Futuro que Queremos Construir” é um artigo que escrevi e publiquei, originalmente em junho de 2019. Na época, o chamei de “As tecnologias avançaram, mas o quanto nós avançamos?“. Porém, gostaria de revisitá-lo agora. Afinal, seis anos depois, ele se mantém extremamente atual. Segue:
Vivemos em uma era de avanços vertiginosos. A tecnologia, o desenvolvimento quântico e a inteligência artificial estão redefinindo o que é possível. Além disso, robôs já compõem músicas. E, em um futuro próximo, teremos carros autônomos que nos levarão aos nossos destinos sem que precisemos sequer tocar no volante. Mas essa revolução tecnológica, embora prometa conforto e praticidade, nos confronta com dilemas éticos complexos e questões profundas sobre o rumo da humanidade.
O Preço da Inteligência Artificial e o Poder da Decisão, Humanidade e o Futuro que Queremos Construir
Pense nos desafios de um carro autônomo em uma situação de acidente iminente. Para tomar decisões em milissegundos, como salvar um idoso ou uma criança, essa inteligência artificial precisará de acesso a um vasto histórico de dados para avaliar o custo-benefício de cada vida. Isso representa uma capacidade de processamento e armazenamento de informações que supera em muito a de milhões de seres humanos juntos.
O controle desse desenvolvimento, no entanto, está nas mãos daqueles que detêm os recursos financeiros para bancá-lo. E aqui reside a dualidade: essas tecnologias podem ser usadas tanto para nos trazer maior praticidade e conforto quanto para fins bélicos. Nesse cenário, qual seria a chance de países como o Brasil em uma disputa contra potências como a China ou os Estados Unidos?
O Alerta da ONU e a Sabedoria Antiga
Em maio de 2018, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lançou a Agenda para o Desarmamento. Este é, aliás, um relatório detalhado que revelou um fato alarmante: os gastos militares globais ultrapassaram 1,7 trilhão de dólares, o nível mais alto desde a queda do Muro de Berlim. Esse valor é oitenta vezes maior do que o necessário para suprir as necessidades de assistência humanitária em todo o mundo. Guterres alerta: “enquanto cada país buscar sua própria segurança sem se preocupar com a dos demais, cria-se uma insegurança global que ameaça a todos nós”.
Essa visão ecoa a sabedoria de Nichiren Daishonin. Ele foi um líder budista japonês do século XIII. Em seu tratado “Estabelecer o Ensinamento Correto para a Pacificação da Terra”, Daishonin ponderou: “Se o senhor se importa realmente com a segurança pessoal, deve primeiro orar pela paz e segurança nos quatro quadrantes da Terra, não é verdade?“.
Tecnologia, Humanidade e o Futuro que Queremos Construir
É inegável que a evolução tecnológica externa ao ser humano tem sido gritante. Ela tem o potencial de beneficiar ou prejudicar milhões de pessoas. Mas o quanto o próprio ser humano evoluiu internamente nesse mesmo período? Afinal, mesmo mentes brilhantes como Einstein e Alan Turing, que transformaram a sociedade, enfrentavam dificuldades sociais e lutavam contra a depressão.
Aliás, o filósofo Arthur Schopenhauer, que viveu entre 1788 e 1860, costumava colocar uma moeda de ouro na mesa durante suas refeições, recolocando-a no bolso ao final. Quando questionado, ele explicou que era uma aposta: depositaria a moeda na caixa de esmolas no primeiro dia em que os oficiais ingleses com quem jantava falassem sobre algo além de cavalos, mulheres ou dinheiro.
A observação de Schopenhauer permanece assustadoramente atual, mudando apenas os temas das futilidades. As pessoas continuam a se mostrar superficiais e, muitas vezes, alheias ao que realmente importa. É fundamental buscar o sucesso material em nossa sociedade, mas isso não pode nos fazer esquecer de conectá-lo a um propósito maior.
A Urgência da Transformação Interna
É imperativa uma transformação interna para que aqueles que detêm os recursos que impulsionam a máquina do desenvolvimento capitalista se humanizem. Eles precisam usar essas ferramentas para o benefício de todos, o que os inclui. Brenton Lengel, comentarista político norte-americano, acredita que a Revolução, em seu sentido abstrato, é inevitável. E embora a história mostre o contrário, ele torce para que esta não seja uma revolução violenta, mas sim algo que brote do humanismo de cada pessoa.
Sabemos que o mundo não é uma simples dualidade entre bem e mal, mas sim entre ignorância e conhecimento. Precisamos inverter a lógica de nosso pensamento, que tende a ir do externo para o interno.
Para encerrar, cito o filósofo Daisaku Ikeda:
“As pessoas não existem em função da religião. É a religião que existe em função das pessoas. Mesmo na política não é o povo que existe em função dos políticos. São os políticos que existem em função do povo. No ensino, os professores existem em função dos alunos. Os médicos existem, acima de tudo, em função dos pacientes. Também a existência dos advogados, cientistas, jornalistas, tudo se resume em função do povo. Entretanto, na maioria das vezes, essa posição está invertida. Utilizam-se do povo para os seus próprios interesses e satisfações. Aqueles que exploram a religião para seus próprios fins egoístas oprimem e desonram as pessoas.
“Eles tiram impiedosamente vantagens dos outros, apossando-se do que podem e então, cruelmente, deixam as pessoas de lado quando não tem mais nada a oferecer. Da mesma forma, aqueles que exploram o mundo da política para o seu próprio fim compartilham do mesmo desprezo pelas pessoas. Os senhores não devem ser enganados por esse tipo de pessoa. As pessoas não existem para beneficiarem os líderes. O que deve ocorrer é justamente o oposto. Os líderes, inclusive políticos e clérigos existem para beneficiar as pessoas. Os professores por sua vez, existem para o bem dos estudantes. Entretanto, muitos dos que estão em posições de liderança comportam-se arrogantemente, desonram as pessoas.”
Autora
Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

