O primeiro O Diabo Veste Prada, lançado lá em 2006, é um dos meus filmes favoritos. A obra é um estudo cirúrgico sobre as relações de poder no ambiente corporativo. Além disso, a narrativa questiona a noção de que uma vida centrada unicamente no sucesso financeiro é sinônimo de completude, convidando o espectador a refletir sobre os sacrifícios que o poder exige. Tudo isso embalado por figurinos escandalosamente bons e relações densas entre os personagens principais e coadjuvantes. Além, claro, de oferecer uma interpretação arrasadora de Meryl Streep. Ela é capaz de conferir complexidade, ameaça e vulnerabilidade a uma chefe tão carrasca quanto icônica. Agora veio O Diabo Veste Prada 2.
O Legado de 2006 de O Diabo Veste Prada: Poder e Sacrifício no Ambiente Corporativo
Se o primeiro filme é uma verdadeira obra-prima, esta sequência surpreende ao igualar e — pasmem! — até ultrapassar a grandiosidade, o apelo e a profundidade do original. Tudo isso sem perder aquele delicioso espírito de nostalgia, mas entregando uma trama que vai muito além dele para justificar a própria existência. Aqui, tudo o que tornou o original memorável está presente de modo ainda mais grandioso, mas sem ceder ao excesso ou ao irrealismo.
Temos o senso de humor crítico e afiado do roteiro de Aline Brosh McKenna, os figurinos de primeira linha, as interpretações divertidas e repletas de camadas, a trilha sonora (que agora ganha o reforço de Doechii e Lady Gaga) e a direção precisa de David Frankel. O diretor, aliás, consegue equilibrar perfeitamente o drama realista e o humor irônico típico da paródia dos chick lits. Afinal, ambos os filmes são baseados nos livros de Lauren Weisberger, que se inspirou em sua própria experiência como assistente de Anna Wintour, da Vogue. Esse equilíbrio confere à obra um teor adorável, reconfortante e, ao mesmo tempo, profundamente analítico.
A Decadência do Jornalismo e o Retorno de Andy à Runway em O Diabo Veste Prada 2
Em O Diabo Veste Prada 2, gosto particularmente de como o filme amplia as tramas e a profundidade de cada personagem. Com isso, o filme mantém a essência de todos, além de trazer uma abordagem mais do que necessária sobre a crise do jornalismo. Esta é uma profissão que depende do humanismo para se manter relevante, mas que hoje, muitas vezes, é reduzida à Inteligência Artificial e a clickbaits. Mesmo assim, o longa mostra que bons profissionais conseguem se aproveitar dos recursos tecnológicos para criar trabalhos de temática rica, importantes para a sociedade e que sejam, de fato, atrativos.
Adoro como o roteiro trabalha, por exemplo, a volta de Andy (Anne Hathaway) à Runway de um jeito que faz total sentido na evolução da personagem. O retorno, aliás, soa profundamente orgânico e ainda nos oferece a possibilidade de reencontrar figuras icônicas em situações novas e desafiadoras:
- Miranda (Meryl Streep) já não pode exibir o mesmo desdém e aquela mesma língua ferina de antes, mas continua incrivelmente talentosa e cínica.
- Nigel (Stanley Tucci) entrega um arco que realmente me emocionou nesta sequência.
A Geração Z no Mercado de Trabalho: Tecnologia vs. Fator Humano
O longa também expõe os paradoxos da chegada da Geração Z ao mercado de trabalho: detentora de um vasto conhecimento técnico, porém, na maioria das vezes, com pouca experiência prática. Dessa forna, a obra evidencia que, no fim das contas, ainda é o fator humano que faz toda a diferença. E, mesmo quando as relações entre os personagens antigos se tornam complicadas, vemos que a capacidade de criar valor coexiste com os instintos mais primitivos (e até mesquinhos) do ser humano. Essas características se tornam evidentes no ambiente corporativo, como é perfeitamente ilustrado pela sempre maravilhosa Emily (Emily Blunt). Aliás, até as participações menores tem momentos incríveis, como a nova personagem de Lucy Liu, uma mulher rica que se recusa veementemente a ser definida por seus relacionamentos.
“Assim como no primeiro filme, os diálogos nos trazem lições riquíssimas sobre os negócios e a vida, e sobre o difícil equilíbrio entre os dois.”
O Diabo Veste Prada 2: Lições de Carreira e a Busca por um Propósito Humanista
Continuo me identificando muito com a Andy de Anne Hathaway e sua busca por um propósito humanista, mesmo em um trabalho que, apesar de ser o sonho de muitas garotas, revela-se altamente desgastante. Essa continuação prova, inclusive, que a ambição por um ideal utópico pode gerar frutos recompensadores — do aspecto financeiro ao criativo —, mesmo que, na prática, a perfeição não exista.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.


Gostei muito mais do II, é gratificante confirmar que a IA nunquinha superará ao talento genuíno, desejo que não precisemos esperar por mais 20 anos pelo III pois muitos de nós talvez não estejamos mais por aqui…