O Complexo Industrial do Autismo e a Fogueira dos Diagnósticos Tardios - O Mundo Autista
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O Complexo Industrial do Autismo e a Fogueira dos Diagnósticos Tardios

O Complexo Industrial do Autismo e a Fogueira dos Diagnósticos Tardios; O Novo Bode Expiatório: Autistas Nível 1 e Diagnósticos Tardios.

O Complexo Industrial do Autismo e a Fogueira dos Diagnósticos Tardios. Quando eu era criança, frequentemente me via na incômoda posição de vilã, mesmo quando, na verdade, era a vítima da situação. Para alguns profissi.ais da saúde, parecia que o meu diagnóstico explicava tudo o que eles precisavam saber. Com uma arrogância peculiar a quem detém o “saber médico”, agiam como se coubesse única e exclusivamente a eles decidir os rumos da minha vida. O autismo, então, tornava-se uma espécie de bode expiatório, uma justificativa pronta para sentenciar a minha inadequação em qualquer ambiente em que eu estivesse inserida.

Nesse sentido, o tempo foi o meu maior aliado. Ele se encarregou de mostrar que as relações humanas e as situações que eu vivenciava eram infinitamente mais complexas. Olhando para trás, chega a ser patético o reducionismo de tentar limitar toda uma vivência a um mero “comportamento” ou “transtorno mental”.

No entanto, a história parece se repetir.

O Novo Bode Expiatório: Autistas Nível 1 e Diagnósticos Tardios

Ultimamente, tenho observado o peso desse mesmo rótulo de “bode expiatório” cair de forma impiedosa sobre autistas nível 1 de suporte, especialmente aqueles que receberam um diagnóstico tardio ou recente.

É lógico e evidente que nenhum diagnóstico de autismo é um consenso absoluto. Mais lógico ainda é o fato de que, quanto mais sutis forem as manifestações das características que compõem os critérios diagnósticos, maior será a probabilidade de avaliações confusas, equivocadas ou mal interpretadas. A isso, soma-se uma realidade inegável: o número de profissionais despreparados é imensamente maior do que gostaríamos de admitir.

Mas, no dia a dia, quem realmente paga a conta?

  • A perda de direitos: Quem sofre as consequências de todas essas flutuações no debate científico, em seu nível mais conceitual, são as pessoas que já têm menos acesso a direitos fundamentais, tratamentos, cuidados e suporte adequado.
  • A vitória do mito sobre a ciência: É assustador perceber que, na esfera pública, mitos e estereótipos se impõem na discussão com muito mais força do que os dados e pesquisas científicas têm a oferecer.

A Hipocrisia e a Mercantilização do Autismo, O Complexo Industrial do Autismo

O ponto mais alarmante desse cenário atual é o comportamento daqueles que mais lucraram com a mercantilização do autismo. Profissionais que, por anos, cobraram valores desproporcionais e injustificáveis por palestras e consultas, agora se erguem como os grandes críticos dos criadores de conteúdo autistas.

A denúncia contra essa mercantilização pode parecer uma pauta recente, mas a verdade é que esse “complexo industrial do autismo” já existia e operava a todo vapor quando recebi meu diagnóstico, em 2008.

Quando vemos pessoas que iniciaram e fomentaram esse movimento de monetização do autismo anos atrás se mostrarem subitamente “críticas” à proporção que o tema tomou, a motivação parece clara. Soa muito mais como uma retaliação à democratização da informação (que, reconheço, por vezes traz problemas reais de diagnóstico equivocado) do que um desejo genuíno por ética e respeito científico.

O Complexo Industrial do Autismo

O incômodo real parece ser com a quebra de um monopólio. Quando o lucro excessivo e a autoridade sobre a narrativa deixaram de ser exclusividade de uma parcela restrita da área da saúde mental, o debate finalmente veio à tona.

Ainda assim, essa discussão continua sendo feita de modo raso e enviesado. E, enquanto as disputas por mercado, narrativa e autoridade se desenrolam nos bastidores e nas redes sociais, os autistas continuam sendo queimados na fogueira.

Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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