A Autoridade Nacional de Saúde da França (HAS) tomou recentemente uma decisão contundente e inédita. Trata-se de não recomendar a psicanálise para o tratamento do autismo devido ao seu nível insuficiente de evidências científicas.
Aliás, a HAS é uma referência na formulação de políticas públicas. Portanto, essa posição levanta um debate essencial sobre como a ciência e a sociedade enxergam as pessoas no espectro autista.
O Autismo Além do Comportamento: Psicanálise na França
Ao refletir sobre essa diretriz, é preciso reconhecer que existem múltiplas camadas envolvidas. De um ponto de vista institucional, a decisão é não apenas compreensível, mas necessária.
- O papel da saúde pública: Agências governamentais devem priorizar caminhos terapêuticos com resultados mensuráveis e objetivos para a maioria da população.
- O valor da ciência: Terapias baseadas em evidências, como as comportamentais, possuem preceitos claros e oferecem segurança e previsibilidade na aquisição de habilidades.
No entanto, quando olhamos além das estatísticas e focamos no indivíduo, a discussão ganha novos contornos. Afinal, o autismo é uma das condições mais heterogêneas da saúde mental. E as terapias, em suas mais diversas vertentes, não existem apenas para tratar “sintomas do autismo”, mas para acolher as complexidades inerentes à condição humana.
A Vida Transborda o Diagnóstico: O Autismo Além do Comportamento
Muitos adultos autistas passam a vida inteira submetidos exclusivamente a terapias de base comportamental, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Não há dúvidas sobre a eficácia dessas abordagens: elas oferecem ferramentas valiosas para o controle da impulsividade, o desenvolvimento de habilidades sociais e a regulação emocional. Afinal, elas fornecem respostas práticas.
Mas o que acontece quando o autista cresce e suas dúvidas deixam de ser puramente sobre a adaptação ao mundo externo. E passam a ser sobre o seu mundo interno?
Para muitos adultos no espectro (especialmente os de nível 1 de suporte), chega um momento em que a vida transborda os déficits do diagnóstico. A partir disso, surgem dilemas existenciais, necessidade de autoconhecimento profundo e a urgência de dar nome a sentimentos complexos. Portanto, é nesse ponto que terapias de base subjetiva, como a psicanálise, podem se tornar vitais.
O Poder da Escolha e o Risco da Imposição: O Autismo Além do Comportamento
Um dos maiores desafios enfrentados por pessoas autistas é a infantilização e a supressão de sua autonomia. Então, ser questionado por um médico com um simples “O que você prefere: uma terapia mais subjetiva ou de base mais objetiva?” pode ser um divisor de águas.
A sensação de que, por causa de um laudo, o indivíduo está condenado a fazer apenas treinamentos comportamentais para o resto da vida é exaustiva. Isso porque a imposição prolongada de terapias focadas em produtividade ou adequação social, quando a pessoa já não precisa delas, pode gerar desgaste profundo. E até sintomas de estresse pós-traumático.
A Psicanálise Trata o Autismo?
Para ser claros: a psicanálise não é uma terapia para tratar o autismo. Isso porque ela não possui esse foco, nem as evidências necessárias para tal fim. A diretriz da autoridade francesa. portanto, é correta nesse sentido.
Contudo, a psicanálise pode ser o espaço onde a pessoa autista se encontra consigo mesma. Afinal, enquanto as evidências empíricas guiam as políticas de saúde, a experiência de vida guia a singularidade do sujeito.
Precisamos amadurecer a compreensão de que cada abordagem terapêutica tem o seu papel e o seu momento. Que as evidências científicas continuem norteando o que é seguro e eficaz para as bases do desenvolvimento. Contanto que não nos esqueçamos de que, por trás de todo diagnóstico, existe um ser humano em busca de significado. E, para isso, a subjetividade e o direito de escolha devem ser sempre preservados.

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.


A psicanálise não trata o autismo por compreender o autismo como um modo diferente de funcionamento subjetivo. A psicanálise trata os autistas, um a um, caso a caso, ajudando-os a habitar um mundo onde a diferença, a singularidade, é desqualificada e tratada como déficit. Sim, a psicanálise trata os autistas, não só adultos, crianças também, pois , para a psicanálise, a criança merece respeito e dignidade no acolhimento de seu sofrimento psíquico! A criança é um sujeito de direitos.