Lançado na esteira de um sucesso absolutamente estrondoso, “Shrek 2” tinha uma missão, para dizer o mínimo, ingrata. Mas, o que a DreamWorks nos entrega aqui é apenas uma sequência alegre e uma expansão de universo de uma inteligência formidável. O roteiro mergulha sem nenhum pudor no pesadelo definitivo de qualquer relacionamento: a apresentação aos sogros.
A transição do nosso ogro favorito do conforto do pântano para o reino de Tão Tão Distante é o cenário perfeito para um desastre anunciado. A dinâmica com o rei e a rainha, inicialmente horrorizados com o genro, rende situações comicamente constrangedoras. E aquele jantar em família, francamente, é uma verdadeira aula de timing cômico.
Um Deslumbre Técnico e Ácido em Shrek 2
Do ponto de vista técnico, a animação é fabulosa. Há um cuidado minucioso com a fluidez dos movimentos, a fotografia e, sobretudo, com as microexpressões faciais dos personagens. Tudo isso é embalado em uma paleta vibrante e em um roteiro que não tem medo de atirar para todos os lados. O filme é uma sátira deliciosamente ácida, infestada de referências à cultura pop que vão da futilidade de Beverly Hills a Martha Stewart, passando por paródias escrachadas dos clichês de Hollywood. A sequência do tapete vermelho do reino é um deboche puríssimo.
As Engrenagens do Humor em Shrek 2: Gato de Botas e a Fada Madrinha
No entanto, o verdadeiro pulo do gato — com o perdão do trocadilho — está nas novas adições ao elenco. A introdução do Gato de Botas, um mercenário diminuto que utiliza olhos marejados de “coitadinho” como arma de destruição em massa, é um achado estupendo. A rivalidade inflada pelo ciúme entre ele e o Burro injeta um fôlego maravilhoso e hilário à narrativa.
Do outro lado do tabuleiro, a Fada Madrinha desponta não como a salvadora benevolente dos contos de fadas, mas como uma antagonista maquiavélica, manipuladora e corporativista. O plano dela para unir Fiona ao seu filho, o fútil e mimado Príncipe Encantado, nos apresenta a uma dupla de vilões guiada pela mais cega e divertida vaidade.
O Veredito
Coroado por uma trilha sonora estupendamente bem afinada com a insanidade geral da trama, o roteiro subverte cada uma das expectativas que o espectador ousa criar. “Shrek 2” não apenas sobrevive ao peso de ser uma continuação; ele se consagra, sem a menor sombra de dúvida, como a joia da coroa e o capítulo mais brilhante e engraçado de toda a franquia.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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