Marilyn Monroe em Torrentes de Paixão: O Suspense que Merecia Hitchcock. Quando a gente pensa em Marilyn Monroe, a imagem que salta à cabeça, quase que instantaneamente, é aquela da mulher que dominou como ninguém a arte de mesclar uma doçura quase ingênua com uma sensualidade vulcânica. Marilyn se especializou nessas comédias em que interpretava a sedutora irresistível, e fez isso com um brilhantismo ímpar em “O Pecado Mora ao Lado” (1955). Mas o ponto alto, o ápice absoluto dessa persona, foi no formidável “Quanto Mais Quente Melhor” (1959), que até hoje permanece como uma das melhores comédias já feitas e que lhe rendeu um muito merecido Globo de Ouro.
Olha, a gente sabe que os bastidores com a Marilyn eram, para dizer o mínimo, uma pedreira. Atrasos crônicos, brigas, uma dificuldade imensa de se concentrar e decorar o texto eram marcas registradas de suas filmagens. Mas o fato é que, quando o diretor gritava “ação”, ela entregava um talento e um timing cômico que eram um verdadeiro assombro.
Torrentes de Paixão (Niagara, 1953): Marilyn como Femme Fatale
Mas aí é que entra a curiosidade que vamos analisar hoje: “Torrentes de Paixão” (1953). O que torna este filme tão fascinante é que ele tira a Marilyn daquela zona de conforto em que estávamos tão habituados a vê-la. Não há humor aqui. Ela interpreta Rose, uma mulher ardilosa que está planejando, junto com o amante, assassinar o próprio marido.
E, para a surpresa de muita gente na época, ela dá conta do recado lindamente. Tem um momento logo no início, quando o marido é dado como morto, em que a câmera captura aqueles sorrisinhos discretos da Marilyn — uma satisfação contida e maquiavélica por achar que o plano deu certo. Logo depois, ao ir identificar o corpo no necrotério, ela tem um desmaio absoluto, e é a partir desse ponto que o roteiro constrói um suspense de primeiríssima linha.
Um Roteiro de Ouro sob uma Direção que Falta Fôlego em Torrentes de Paixão
Os roteiristas Charles Brackett, Walter Reisch e Richard L. Breen tecem uma trama engenhosa que vai te enredando, te prendendo e revelando os segredos a conta-gotas. É um material que implora, que grita por Alfred Hitchcock. Mas, infelizmente, e tem um “mas” bem grande aqui, o diretor é Henry Hathaway. Ele é um profissional competente, claro, mas na hora de apertar os parafusos da tensão, ele deixa muito a desejar. Momentos que poderiam ser de deixar o espectador sem ar — como quando o marido decide ir atrás de Rose para se vingar, ou o próprio clímax da história — acabam soando mornos. Falta aquela pulsação, aquela urgência estética que o mestre do suspense imprimiria na tela.
Se a direção oscila, as atuações também estão longe de ser uma unanimidade. Marilyn e Joseph Cotten estão muito bem; ela surpreende com a carga dramática, e ele traz todo aquele ar de ameaça e peso que o personagem exige. Por outro lado, o casal paralelo vivido por Jean Peters e Max Showalter é uma decepção. Jean até tem um papel vital na trama, mas Showalter entrega uma atuação artificial, cheia de caras e bocas, que tira completamente a verossimilhança das cenas.
Vale a pena assistir Niagara? O Veredito sobre Marilyn e Joseph Cotten
Ainda assim, “Torrentes de Paixão” é um filme muito interessante e que merece ser visto, sustentado por um roteiro fortíssimo e pela oportunidade de ver Marilyn Monroe provando que era muito mais do que um rostinho bonito. Porém, é inevitável terminar o filme com aquele gosto de melancolia. É uma lástima verdadeira que esse projeto não tenha caído nas mãos de Hitchcock, pois se isso tivesse acontecido, o filme seria lembrado por si só como uma obra-prima inquestionável do suspense, e não apenas como aquela curiosidade em que a Marilyn não faz comédia.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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