Lenda Urbana: O Deleite Macabro e a Paranoia Analógica dos Anos 90 - O Mundo Autista
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Lenda Urbana: O Deleite Macabro e a Paranoia Analógica dos Anos 90

Confira a crítica de Lenda Urbana (1998) por Sophia Mendonça. Descubra como o clássico do terror une mitos, subtexto feminista e um elenco inesquecível.

Confira a crítica de Lenda Urbana (1998) por Sophia Mendonça. Descubra como o clássico do terror une mitos, subtexto feminista e um elenco inesquecível.

Confira a crítica de Lenda Urbana (1998) por Sophia Mendonça. Descubra como o clássico do terror une mitos, subtexto feminista e um elenco inesquecível.

Para entender o real impacto de Lenda Urbana, a gente precisa, antes de mais nada, fazer uma viagem no tempo até 1998. Estávamos vivendo o rescaldo, o epicentro do terremoto causado por Pânico dois anos antes. O mercado, veja bem, estava absolutamente saturado de assassinos mascarados e adolescentes correndo por suas vidas. Isso exigia que os estúdios fossem, no mínimo, muito criativos para conseguirem se destacar na multidão. E é aí que a TriStar Pictures encontrou uma verdadeira mina de ouro no marketing: ela se apoiou na cultura do “boca a boca” de uma era pré-internet de banda larga.

Francamente, em 1998, a internet mal engatinhava. Os mitos urbanos ainda dependiam enormemente daquela fofoca analógica, a famosa história do amigo do primo do vizinho. E o que Lenda Urbana faz com maestria é capturar exatamente aquele momento em que a desinformação alimentava uma paranoia que parecia muito real e, convenhamos, muito divertida. O filme transforma mitos como o assassino no banco de trás, o maníaco com o gancho e a mistura fatal de refrigerante com bala explosiva em uma realidade palpável.

Dessa forma, Lenda Urbana mistura um senso de humor ousado com um enredo intrincado e personagens conhecedores do estilo ao qual ele pertence. Além disso, as várias referências ao gênero e as pistas faltas que o filme constantemente cria facilitam o envolvimento com a narrativa.

A Direção Astuta e as mulheres de Lenda Urbana

É aqui que a direção do Jamie Blanks, que depois faria o também focado em mulheres O Dia do Terror se mostra tão fundamental para traduzir o subtexto dessas histórias para a tela. Lendas urbanas, historicamente, funcionam como “contos de fadas sombrios” modernos. Portanto, são carregados de um moralismo muito severo. Elas são, na sua essência, contos de advertência desenhados para policiar o comportamento e a liberdade feminina. Com isso, trazem mensagens do tipo “não dirija sozinha à noite, não ande por becos escuros, não seja sexualmente ativa e não confie em estranhos”.

Blanks entende perfeitamente essa dinâmica. O mundo de Lenda Urbana é desenhado como um ambiente hostil para as mulheres. O diretor filma os espaços da Universidade Pendleton, como aqueles estacionamentos vazios, os dormitórios solitários e as florestas nebulosas, como armadilhas arquitetadas contra o gênero feminino. A vulnerabilidade de personagens como Natalie (Alicia Witt) e Michelle (Natasha Gregson Wagner) reflete o perigo real que as mulheres enfrentam todos os dias, aqui potencializado pela lente do terror. Dessa forma, o filme escancara como a sociedade nos ensina a viver em um constante, e exaustivo, estado de alerta.

Com uma revelação de quem é o assassino absolutamente genial, Lenda Urbana traz uma mensagem rascante: as histórias que contamos para guiar as ações das mulheres em um mundo patriarcal são reembaladas. E, de forma um tanto perturbadora, somos nós mesmas que repassamos essas lendas para a próxima geração. Dessa forma, ensinamos estratégias de sobrevivência em vez de enfrentarmos os predadores de frente.

Um Elenco de Peso e a Reverência ao Gênero

Já o elenco principal defende os personagens com uma energia contagiante. Você consegue embarcar na jornada com Jared Leto e Alicia Witt. O site Collider, aliás, classificou a protagonista de Witt como a oitava melhor final girl dos anos 1990, e dá para entender o porquê. Ela é a típica sobrevivente: jovem, carismática e com um passado deliciosamente sombrio. No ensino médio, uma pegadinha de lenda urbana armada por ela resultou em uma morte acidental. Agora, cercada por amigos morrendo com a mesma assinatura macabra, Natalie corre em direção ao perigo para tentar salvá-los.

Mas quem rouba a cena, de forma absoluta, é Rebecca Gayheart. Afinal, ela tem um olhar deliciosamente insano e uma capacidade formidável de surpreender, mesmo operando dentro de arquétipos. Outro deleite é Loretta Devine como Reese, a guarda de segurança, que confere um vigor espetacular a um papel que, em tese, não teria muita novidade a oferecer.

E, apesar da embalagem de cópia de Pânico, Lenda Urbana faz a sua própria e belíssima reverência ao gênero por meio das escolhas de elenco. É, portanto, uma carta de amor aos fãs ter nomes como Robert Englund (o eterno Freddy Krueger), Brad Dourif (a voz do Chucky) e Danielle Harris (de Halloween). Isso é o que eu chamo de realeza do terror.

A Paisagem Sonora: O Toque de Mestre

Outro aspecto que eleva Lenda Urbana é a paisagem sonora. A composição original ficou a cargo do lendário Christopher Young, um mestre responsável por obras como Hellraiser. E ele foge brilhantemente dos sintetizadores genéricos e das guitarras distorcidas típicas da época. Assim, nos entrega uma trilha orquestral robusta, gótica, com coros vocais assombrosos que dão uma aura quase sobrenatural a um assassino que é, no fim das contas, muito humano.

Avaliação

Avaliação: 4.5 de 5.

Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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