Nós adoramos uma boa história bem contada. Então, pensando no clima de Dia dos Namorados, decidimos assistir ao filme Obsessão. Essa obra nos tocou profundamente. Com uma mistura interessante de terror e comédia ácida, o filme nos fez sobre os perigos do controle e da idealização nos relacionamentos.
A Ilusão da “Mulher Perfeita” no filme Obsessão
A premissa do filme acompanha um rapaz tímido e romântico que se apaixona pela melhor amiga. Porém, ele percebe que ela não o responde. Então, o jovem usa um objeto místico para pedie que ela o ame acima de qualquer coisa. E é aí que entra a famosa lição: “cuidado com o que você deseja”.
A partir do momento em que o feitiço faz efeito, as emoções se tornam asfixiantes. Aquela mulher real, dona de si, é completamente desconstruída. Ele não queria um ser humano complexo, com livre-arbítrio. Ele queria uma boneca, alguém que ele pudesse moldar exatamente aos seus desejos.
Quando a amiga perde a sua autonomia e passa a viver apenas em função dessa magia, ela vira praticamente um espectro na penumbra, uma sombra da mulher que já foi um dia. E embora ele se assuste com o resultado, não podemos esquecer: foi ele quem provocou essa maldição.
Nossa Perspectiva Autista do filme Obsessão e o Perigo da Radicalização
Os filmes de terror contemporâneos são extremamente metafóricos. E Obsessão espelha um medo muito real da nossa sociedade atual. Aqui, nos referimos à existência de homens que, frustrados e sentindo-se invalidados em seus romances, colocam toda a culpa nas mulheres.
Como mulheres autistas, isso nos toca de forma muito particular. Afinal, sabemos que o público alvo de muitos conteúdos online misóginos e discursos de ódio são justamente os rapazes que se sentem isolados ou amargurados.
Muitos garotos e homens autistas acabam sendo vítimas dessa estrutura. Nós, autistas, temos uma característica chamada rigidez cognitiva, que é uma inflexibilidade de pensamento. Não é por maldade, mas se não fizermos um exercício de enxergar outras perspectivas, podemos passar a ver o mundo de uma única maneira.
Quando esses rapazes encontram comunidades na internet com argumentos que parecem lógicos dentro daquele contexto de ódio, eles podem interpretar isso como uma verdade absoluta. Eles crescem, viram homens que reproduzem comportamentos violentos e tentam obrigar as mulheres a serem de um jeito específico. Mas as mulheres não são apenas objetos dóceis a serem controlados. Nós temos talento, ambição e complexidade. Contudo, a objetificação nos tira a possibilidade de sermos humanas.
O Amor Constrói, Não Poda
Diante do crescimento das taxas de feminicídio que acompanhamos todos os dias, a reflexão de Obsessão é urgente. Isso porque ma relação onde a autonomia de um dos parceiros é anulada não é amor, é posse.
Nós já ouvimos até mesmo pessoas autistas falarem: “Nossa, eu prefiro ter um relacionamento abusivo do que não ter nenhum”. Gente, por favor, não prefiram! Nós já passamos por muita coisa e garantimos: não vale tudo por um relacionamento. Afinal, o verdadeiro amor constrói. Isso quer dizer que no amor verdadeiro, você cresce. Portanto, se a relação começou a te podar, a te cortar e a tirar sua essência: desconfie e fuja.
Avaliação: 8/10
Vídeo – Obsessão

Autoras
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

Autoras
Selma Sueli Silva é criadora de conteúdo e empreendedora no projeto multimídia Mundo Autista D&I, escritora e radialista. Mestranda em Literatura pela UFPel, é também especialista em Comunicação e Gestão Empresarial (IEC/MG). Além disso, ela atua como editora no site O Mundo Autista (Portal UAI) e é articulista na Revista Autismo (Canal Autismo). Autora de livros como “Minha vida de trás para Frente“(2017) e “Camaleônicos” (2019).
Em 2019, Selma recebeu o prêmio de Boas Práticas do programa da União Europeia Erasmus+. Além dele, ganhou Prêmio Microinfluenciadores Digitais 2023, na categoria PcD. E é membro da UNESCOSOST movimento de sustentabilidade Criativa, desde 2022. Como crítica de cinema, é formada no curso “A Arte do Filme”, do professor Pablo VIllaça. Também é mentora em “Comunicação e Diálogo” para comunicação eficaz e um diálogo construtivo nos Relacionamentos Interpessoais, Sociais, Familiares, Profissionais e Estudantis.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

