Eurotrip (2004): de fracasso de bilheteria a fenômeno cult - O Mundo Autista
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Eurotrip (2004): de fracasso de bilheteria a fenômeno cult

A Europa como uma fantasia distorcida da juventude no filme “Eurotrip: Passaporte para a Confusão”, que foi de fracasso a fenômeno cult.

A Europa como uma fantasia distorcida da juventude no filme “Eurotrip: Passaporte para a Confusão”, que foi de fracasso a fenômeno cult.

“Eurotrip: Passaporte para a Confusão” (2004) é um clássico besteirol que encontrou vida após o fracasso. Isso porque o filme foi subestimado tanto pela bilheteria — que arrecadou modestos 22,6 milhões nos cinemas — quanto pela crítica da época. No entanto, o longa-metragem garantiu status cult e lugar cativo na memória afetiva do público por meio do mercado de Home Video e das reprises na televisão.

Tudo isso aconteceu por mais que seja difícil classificá-lo como uma obra à frente do seu tempo. Afinal, o teor politicamente incorreto, repleto de nudez, estereótipos e profanidades, é facilmente questionável hoje. Ainda assim, a produção acerta ao ancorar seu humor exagerado na imaturidade dos protagonistas. Dessa forma, a obra revela-se uma sátira juvenil afiada sobre os anseios da adolescência e a percepção xenofóbica e ingênua que os estadunidenses têm do continente europeu.

“Scotty Doesn’t Know” e o pontapé inicial da jornada

A trama começa em Hudson, Ohio, logo após a formatura de Scott “Scotty” Thomas. O dia do rapaz desmorona quando ele é dispensado publicamente pela namorada, Fiona. Para piorar, ele ainda descobre que foi traído com o vocalista de uma banda punk — vivido por Matt Damon em uma participação lendária que nos presenteou com o hino “Scotty Doesn’t Know”. Bêbado e humilhado, Scott cometeu a gafe de insultar o amigo de correspondência alemão, Mieke, por achar que o nome pertencia a um homem que estava flertando com ele.

Cena de Scotty Doesn’t Know, do filme “Eurotrip: Passaporte para a Confusão”

Ao descobrir que Mieke é, na verdade, uma garota deslumbrante, Scott decide cruzar o Atlântico para se desculpar pessoalmente. Ele embarca nessa loucura acompanhado de Cooper, omelhor amigo excêntrico e obcecado por sexo. E no caminho, o dueto se torna um quarteto ao reencontrar os gêmeos Jenny e Jamie em Paris.

Do Vandersexxx ao Vaticano: O carisma do caos em “Eurotrip: Passaporte para a Confusão”

Embora o filme inicie em um ritmo lento, ele acerta ao provocar uma simpatia estranha e genuína pelos personagens que acompanhamos nessa turnê caótica. Essa conexão se fortalece pelas atuações sólidas e pela química do elenco principal. Isso porque há um teor de camaradagem que torna fácil embarcar no humor nonsense. Assim, não há tanta maldade real nos comportamentos, mas principalmente um desejo puro de desbravar o mundo. O que resulta em situações icônicas: desde a passagem pela Holanda com sua legislação liberal e o clube Vandersexxx, passando por uma sequência profana no Vaticano, até a estadia na Bratislava, onde a desvalorização da moeda local vira a piada central.

A Europa como uma fantasia distorcida da juventude no filme “Eurotrip: Passaporte para a Confusão”

Curiosamente, a inautenticidade visual do filme joga a seu favor. Quase toda a produção foi rodada em Praga, servindo de dublê para Londres, Paris, Berlim e até os EUA. Os cenários óbvios e o CGI barato acabam ressaltando o ponto central do roteiro: aquela não é a Europa real, mas sim a fantasia distorcida do que quatro adolescentes americanos ingênuos imaginam que a Europa seja. No fim, “Eurotrip” sobreviveu ao teste do tempo não por sua precisão geográfica, mas por ser um retrato divertido e nostálgico da amizade e das aventuras absurdas da juventude.

Avaliação

Avaliação: 4 de 5.

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Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Idealizadora da mentoria “Conexão Raiz”. Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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