A cineasta Jane Campion, que venceu estatuetas do Oscar por obras-primas como O Piano e Ataque dos Cães, é uma das pioneiras do chamado female gaze, o olhar feminino no cinema contemporâneo. No filme Em Carne Viva (In the Cut, 2003), ela subverte as convenções do thriller erótico.
Este é um suspense de investigação sobre um assassino em série. Mas, muito além de sua premissa criminal, o longa funciona como um conto de fadas para adultos que é sombrio e perturbador. Assim, a obra direciona o foco para a paranoia sexual, o desejo feminino e a atmosfera onírica que domina a mente da protagonista. O resultado é um estudo visceral sobre a alienação e a decadência da vida moderna.
A Jornada de Frannie, de Em Carne Viva: Do Isolamento Urbano ao Perigo
A história acompanha Frannie Avery (Meg Ryan). Ela é uma professora de redação e linguística em Nova York. Também é uma mulher solitária, introspectiva e excessivamente cautelosa. Frannie passa o tempo livre imersa em cadernos. Com isso, coleta gírias e expressões urbanas para um livro que está escrevendo.
A vida de Frannie sofre uma guinada irreversível em uma noite aparentemente comum. Isso porque, ao encontrar um dos alunos em um bar decadente, ela desce acidentalmente pelo porão escuro do local. Lá, protegida pelas sombras, flagra uma mulher fazendo sexo oral em um homem desconhecido. O rosto dele está oculto. Um detalhe, contudo, fica gravado em sua memória. Trata-se de uma tatuagem distinta de um três de espadas no pulso.
O Crime e o Desejo: A Dinâmica com o Detetive Malloy
Poucos dias depois, partes do corpo desmembrado dessa mesma mulher são encontradas no jardim próximo ao apartamento de Frannie. O crime brutal atrai a atenção da polícia de Nova York. Dessa forma, traz o detetive James Malloy (Mark Ruffalo) à porta da professora para um interrogatório. Malloy é rude, invasivo e de linguajar chulo. Ainda assim, ele exala um magnetismo cru que imediatamente desperta desejos há muito reprimidos na protagonista.
O Female Gaze e a Quebra das Convenções de Gênero no filme Em Carne Viva
Em vez de transformar o corpo feminino em um mero objeto de espetáculo para o olhar masculino, como era de praxe no gênero, Jane Campion inverte o jogo. Assim, ela coloca em primeiro plano a agência, a imaginação erótica e a sensibilidade tátil da protagonista. Dessa forma, a diretora desarticula de forma violenta as fantasias clássicas de romance.
Em Carne Viva e A Desconstrução de Meg Ryan
Diferentemente de grandes obras dirigidas sob o olhar masculino focadas na objetificação da mulher durante o prazer ou a dor, a diretora inova ao centralizar a perspectiva subjetiva e a experiência sensorial da heroína. Grande parte do poder hipnótico do filme, aliás, é sustentado pela presença da protagonista. Isso porque Meg Ryan, então eternizada como a adorável estrela de comédias românticas de sucesso como Harry e Sally e Mensagem Para Você, destrói e reconstrói essa imagem com uma profundidade curiosa. Não são precisos longos discursos. Afinal, por meio de silêncios eloquentes, microexpressões e reações táteis sutis, Ryan comunica o isolamento social sufocante e a atração perigosamente reprimida de Frannie.
A Atmosfera Neo-Noir de Nova York
Aliás, a força narrativa de Em Carne Viva reside também em sua ambientação. A Nova York apresentada no filme exala uma atmosfera perigosa de um neo-noir. Portanto, é quase como se o próprio ambiente impedisse os instintos e impulsos mais primitivos de se revelarem à luz do dia. Dessa forma, o isolamento urbano cria um cenário perfeito para a exploração crua dos instintos reprimidos da protagonista.
Avaliação: 7/10
Vídeo – Em Carne Viva

Autoras
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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