Ontem, fiz a primeira palestra dentre as que fui convidada para abril de 2026, como youtuber do canal Mundo Autista. Após um período de afastamento consciente da comunidade e da criação de conteúdo sobre autismo, sinto que é bom estar de volta. Esse distanciamento, contudo, foi necessário. Nos últimos anos, observamos com mais ênfase como interesses econômicos e políticos invadiram a pauta autista. O que, infelizmente, não é novidade. No entanto, o que mais me assustou foi o surgimento de uma agressividade disfarçada. As pessoas encontraram maneiras mais sofisticadas de reclamar, invalidar e desqualificar as perspectivas alheias.
Ainda assim, estar presente em eventos e promover o diálogo é fundamental. Há muito o que ser dito, e ainda mais a ser descoberto.
A Riqueza Interior e a Dignidade Humana
Neste evento de ontem, organizado pela antropóloga Daniela Feriani, tive o privilégio de ouvir a história do João, contada por sua mãe, Helen. Ele é um autista nível 3 de suporte. E relatos como o dele nos lembram de que existe uma riqueza interior imensa que, muitas vezes, não conseguimos expressar do jeito convencional. Mas a ausência de uma expressão normativa não significa que essa riqueza não exista. Cada vida é única e carrega consigo uma dignidade singular que deve ser respeitada.
Todo ser humano tem o seu potencial e pode explorá-lo ao máximo, desde que receba o suporte adequado de quem está ao redor e de toda a sociedade.
Além do “Asperger”: A Verdade Sobre os Níveis de Suporte
Estou na comunidade do autismo, na prática, desde que nasci, mas oficialmente desde 2008, quando recebi o diagnóstico aos 11 anos. Hoje, aos 29, vejo o quanto nossa compreensão evoluiu. Naquela época, o termo utilizado para casos como o meu era “Síndrome de Asperger”. Com o tempo, as minhas condições coexistentes e as minhas vivências provaram que o Asperger não é, de forma alguma, um sinônimo exato para o que chamamos hoje de Autismo de Nível 1 de suporte.
Sempre acreditei que eu fosse Nível 1. De fato, minha comunicação e meu Quociente de Inteligência (QI) verbal são muito altos. Faço parte daquela pequena porcentagem da população com facilidade extrema para a linguagem. Porém, há uma assimetria gritante: nas atividades de vida diária e na resolução de problemas práticos, minha pontuação cai drasticamente.
A realidade prática disso é que meu dia a dia é extenuante. Eu demando um suporte muito forte. Portanto, manifesto um autismo de Nível 2 de suporte no dia a dia, embora minha habilidade social camufle isso, me aproximando do Nível 1. E é urgente que a gente comece a ler as entrelinhas nos diagnósticos.
A Sobrevivência na Academia e o Colapso do meu Mundo Autista
Sempre tive fascínio por estudar as nuances do autismo, principalmente em mulheres. Antes mesmo de virar algo comum, eu já trazia recortes de classe, etnia e gênero para as minhas pesquisas E focava, especialmente, no autismo no feminino. Isso rendeu muitos frutos, incluindo a publicação de 10 livros, mas o caminho cobrou seu preço.
Fiz meu mestrado na UFMG. Nessa instituição, enfrentei um ambiente pouquíssimo acessível, onde cheguei receber ofensas. Depois, mudei-me para Pelotas, no Rio Grande do Sul, para cursar o doutorado em Literatura, orientada pelo fantástico Gustavo Ruckert, que também é autista. Apesar do bom ambiente acadêmico lá, a dificuldade com as demandas diárias me fez adoecer gravemente.
Cheguei, portanto, ao meu limite. Às vezes, ficava o dia inteiro paralisada na cama, em estado de shutdown, com incontinência urinária, sem conseguir levantar. Como eu disfarçava bem no convívio social (masking), ninguém percebeu a gravidade. Apenas quando fui para Belo Horizonte minha mãe notou minhas roupas encharcadas. E olha que ela é a mãe mais atenta que eu conheço. O saldo desse colapso foi um diagnóstico de insuficiência cardíaca e a descoberta de que eu estava tomando medicamentos para TDAH acima da dose suportada pelo meu corpo. Tudo isso porque precisava dar conta do doutorado e do mercado de trabalho, onde era muito cobrada. Foi a minha mãe quem me salvou.
O Novo Mundo Autista e a Resposta ao Trauma
A minha relação com a minha mãe é o meu maior alicerce. Ela, que foi diagnosticada autista há 10 anos, na curva dos 50, é minha grande parceira. Nós vivemos uma verdadeira dinâmica de mestre e discípulo que não é linear. Assim, ora eu aprendo com ela, ora ela aprende comigo.
Hoje, o canal Mundo Autista conta com mais de 80 mil seguidores e está passando por uma espécie de rebranding. Estamos abrindo espaço para falar da minha verdadeira paixão: a crítica de cinema e a crítica cultural. Claro que o autismo continuará inserido nesse contexto, pois essa “visão de mundo autista” é inseparável de quem eu sou.
Depois de tudo o que passei, carrego uma lição fundamental: a melhor resposta para o trauma é focar na esperança e cultivar outras paixões na vida. E é exatamente isso que estamos construindo agora.

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

