Da Magia à Sedução: O Legado Feminista do Clássico dos Anos 90 - O Mundo Autista
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Da Magia à Sedução: O Legado Feminista do Clássico dos Anos 90

Da Magia à Sedução, com Sandra Bullock e Nicole Kidman desafiou a época ao usar a bruxaria como metáfora para a cura de traumas geracionais

Da Magia à Sedução, com Sandra Bullock e Nicole Kidman desafiou a época ao usar a bruxaria como metáfora para a cura de traumas geracionais

Da Magia à Sedução, com Sandra Bullock e Nicole Kidman desafiou a época ao usar a bruxaria como metáfora para a cura de traumas geracionais

O grande trunfo do clássico cult de 1998, Da Magia à Sedução, reside na habilidade de misturar elementos doces e sombrios. Assim, a obra utiliza a bruxaria como metáfora para a rejeição social de mulheres que ousam se destacar. Dessa forma, o filme revela-se um ensaio lúdico sobre a união feminina e o poder inato que emana do olhar e das características das mulheres. Trata-se, aliás, de adaptação do livro de Alice Hoffman.

Este longa-metragem, entretanto, foi incompreendido à época do lançamento. Afinal, a obra sofreu nas mãos de uma crítica que não estava pronta para a ousadia dessa mistura de gêneros. Contudo, o tempo provou ser o seu maior aliado. Isso porque o filme cresceu exponencialmente em revisões ao longo dos anos. A ponto de, quase 30 anos depois, ganhar uma aguardada sequência. Esta será dirigida pela vencedora do Oscar Susanne Bier.

Da Magia à Sedução Subverte a Fórmula da Comédia Romântica

O que torna Da Magia à Sedução uma peça tão única na engrenagem de Hollywood é a forma como ele discute temas profundos sob uma roupagem leve. A narrativa aborda violência doméstica, o embate entre fé e razão, e a busca, muitas vezes frustrante, porém recompensadora, pelo amor romântico genuíno por parte de mulheres que fogem do padrão imposto pela sociedade.

O diretor Griffin Dunne subverteu corajosamente a fórmula tradicional das comédias românticas dos anos 1990. Ele conseguiu a proeza de misturar o romance açucarado com homicídio acidental e possessão demoníaca. E o fez de maneira magistral. Por exemplo, a sensualidade na tela é elegante  e jamais resvala na vulgaridade.

Um Elenco Tocado Pela Magia

As interpretações de todo o elenco tornam a narrativa ainda mais envolvente. Isso porque elas compreendem perfeitamente o caráter lúdico do enredo. No auge da beleza, e sempre muito carismática, Nicole Kidman dá vida a Gillian. Ela é irmã bondosa, mas travessa, que a sociedade julga como devassa e a rotula como se fosse apenas isso. Já Sandra Bullock Interpreta Sally, a jovem mocinha que, em seu desejo profundo por uma vida “comum” e segura, escolhe abrir mão do próprio poder mágico. Também vale destacar a presença de Stockard Channing e da duplamente vencedora do Oscar Dianne West. Elas brilham como as tias excêntricas, que servem como pilar da ancestralidade e sabedoria da família Owens.

E por falar em família Owens, um dos aspectos mais bonitos de “Da Magia à Sedução” está na maneira como a narrativa lida com o trauma geracional. A partir de um prólogo sensacional, a obra condensa nas Owens a vivência histórica de mulheres independentes que vivem sem a “mentoria” ou a “proteção” de uma figura masculina e que detém sabedoria, como o conhecimento de plantas medicinais. Essa população acabou levando a culpa pelos infortúnios da sociedade, o que vai desde maridos roubados a epidemias. 

O grande trunfo da obra, dessa forma, é mostrar que o verdadeiro poder está no amor genuíno e na união entre as mulheres, capaz de destruir maldições e feitiços. Essa força que transcende os obstáculos está muito bem representada pela belíssima casa da família. Este é um local de sabedoria matriarcal que desperta o desejo, a repulsa e a inveja alheios. Sem contar que a química entre o elenco feminino, e especialmente a dinâmica fraterna entre Kidman e Bullock, é tão autêntica que beira a verdadeira magia.

O Espírito de Bruxa Feminista e o Eco dos Anos 90 em Da Magia à Sedução

É fascinante observar como obras que usam a bruxaria e sua mitologia como símbolos da força e da vulnerabilidade feminina transformam o sobrenatural em metáforas para angústias, desejos e vivências reais. Os anos 90 foram férteis nesse aspecto. E ofereceram criações inesquecíveis, que vão desde as séries de TV Sabrina, a Aprendiz de Feiticeira e Charmed, até Jovens Bruxas.

O teor excêntrico dessas produções permitia refletir sobre as durezas do cotidiano concreto por meio de uma fantasia mais leve. Ali, residiam os ingredientes cruciais para lançar uma lente feminina sobre as experiências das próprias mulheres, algo que, de modo geral, era raro na época. Afinal, a mentalidade da indústria ditava que, para ser lucrativa e “universal”, uma história deveria girar em torno de um protagonista masculino. O que geralmente relegava a mulher ao papel de mero interesse romântico.

Da Magia à Sedução rompeu com essas amarras. E é exatamente por ser um filme sincero e terno que ele envelheceu tão bem ao equilibrar comédia, drama e terror. O público mais jovem, livre das amarras técnicas perpetuadas pelo olhar engessado do gênero cinematográfico daquela década, conseguiu perceber rapidamente as verdadeiras intenções e o coração da narrativa: o seu inegável espírito de bruxa feminista.

No fim das contas, Da Magia à Sedução é a prova de que boas histórias envelhecem como vinho. Afinal, esta é uma obra absolutamente adorável que continua a nos enfeitiçar.

Avaliação

Avaliação: 4.5 de 5.
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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