Wicked: O espetáculo deslumbrante e a complexa anatomia da maldade - O Mundo Autista
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Wicked: O espetáculo deslumbrante e a complexa anatomia da maldade

Ariana Grande e Cynthia Erivo são a alma do primoroso e denso musical WIcked: Parte 1. Leia a crítica de Sophia Mendonça.

Ariana Grande e Cynthia Erivo são a alma do primoroso e denso musical WIcked: Parte 1. Leia a crítica de Sophia Mendonça.

Ariana Grande e Cynthia Erivo são a alma do primoroso e denso musical WIcked: Parte 1. Leia a crítica de Sophia Mendonça.

“As pessoas nascem más ou a maldade lhes é imposta?”. É com essa provocação formidável que a personagem de Ariana Grande abre Wicked (2024), e é exatamente a resposta a essa pergunta que sustenta toda a grandiosidade deste longa. Não é à toa que a obra se tornou um leviatã de bilheteria e um competidor de peso na temporada de premiações rumo ao Oscar e ao Globo de Ouro. O que temos aqui, meus caros, é um entretenimento de primeiríssima grandeza que utiliza a casca de uma superprodução para fazer uma análise surpreendentemente densa sobre política, amizade e as estruturas sociais.

A transição dos palcos da Broadway para a tela grande costuma ser um terreno arenoso, mas o diretor John M. Chu (Podres de Ricos) demonstra uma maturidade espantosa. Ele entende que o cinema oferece ferramentas que o teatro não tem, e aproveita cada milímetro da linguagem cinematográfica para expandir esse universo. As locações são de uma exuberância de encher os olhos — do rigor acadêmico da Universidade de Shiz à opulência da Cidade das Esmeraldas —, criando a atmosfera mágica exata para que números musicais de capricho irretocável possam brilhar.

Ariana Grande e Cynthia Erivo são a alma desse belíssimo musical

Mas o verdadeiro milagre de Wicked atende por dois nomes: Cynthia Erivo e Ariana Grande. Assumir os papéis que foram imortalizados por Idina Menzel e Kristin Chenoweth nos palcos era uma tarefa ingrata, mas a dupla não apenas sobrevive ao desafio; elas o dominam. Erivo é uma força da natureza, transmitindo uma dualidade lancinante entre a solidão crônica e a esperança de uma Elphaba incompreendida pela cor de sua pele.

Do outro lado, engana-se redondamente quem achou que veria apenas uma estrela pop brincando de atuar. Ariana Grande resgata um instinto cômico natural (lapidado lá atrás, nos seus tempos de Nickelodeon) e constrói uma Glinda perfeitamente crível. Ela evita a armadilha fácil da caricatura de “patricinha fútil” para nos entregar uma jovem tateando os próprios privilégios. A amizade inusitada e solidamente construída entre essas duas é, sem tirar nem pôr, o grande coração do filme.

A natureza do mal em Wicked

No entanto, o que eleva Wicked do status de “ótimo musical” para “obra memorável” é a sua recusa em abraçar o maniqueísmo. O filme mergulha de cabeça na natureza da maldade e, de forma fascinante, dialoga diretamente com princípios de filosofias orientais, como o budismo. A narrativa nos lembra que o mal, muitas vezes, não é uma força sobrenatural, mas o resultado do egoísmo, do medo e da perseguição política — elementos tristemente recorrentes na nossa própria História.

Como o próprio princípio budista da “unicidade do bem e do mal” sugere, ninguém é intrinsecamente um anjo ou um monstro; as pessoas são complexas, falhas e moldadas por suas intenções e condições de vida. Ao questionar os rótulos que a sociedade de Oz coloca em Elphaba, o filme nos obriga a olhar para as nossas próprias estruturas de opressão e intolerância. É um espetáculo deslumbrante sobre a necessidade urgente de empatia. Um triunfo absoluto.

Avaliação

Avaliação: 5 de 5.

Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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