Crítica | Um Corpo que Cai (Vertigo): A Genialidade de Hitchcock - O Mundo Autista
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Crítica | Um Corpo que Cai (Vertigo): A Genialidade de Hitchcock

Crítica de Um Corpo que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock. Este suspense inovador foi considerado o melhor filme de todos os tempos.

Crítica de Um Corpo que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock. Este suspense inovador foi considerado o melhor filme de todos os tempos.

Crítica de Um Corpo que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock. Este suspense inovador foi considerado o melhor filme de todos os tempos.

Quando a famigerada revista Sight & Sound, do Instituto de Cinema Britânico, alçou Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958) ao disputadíssimo posto de melhor filme de todos os tempos, eu confesso a vocês: tive um momento de hesitação. Aquela sensação imediata de “será mesmo?”. Logo após a sessão, a ficha ainda não havia caído totalmente para mim. Mas, veja você, é preciso deixar o cinema de Hitchcock decantar. Quando você para, reflete e mastiga o que ele fez ali, percebe que, para a época, foi algo simplesmente estarrecedor de tão inovador.

Um Corpo que Cai: O Título de Melhor Filme de Todos os Tempos é Justo?

A premissa, na superfície, nos apresenta a John “Scottie” Ferguson — vivido por aquele James Stewart sempre impecável —, um detetive fragilizado e aposentado à força por uma acrofobia paralisante, o famoso medo de altura. Ele é cooptado por um amigo, Gavin Elster (Tom Helmore), para seguir a esposa deste, Madeleine (a enigmática Kim Novak). Ela anda vagando por San Francisco com um comportamento errático, e Hitchcock nos joga de imediato nessa dúvida cruel: estamos lidando com uma força sobrenatural intransponível ou com um abismo de insanidade?

O roteiro, olha, é um verdadeiro trabalho de ourivesaria. Ele é sinuoso, envolvente e não entrega o ouro de bandeja. Ao soltar as informações a conta-gotas, os roteiristas vão fisgando a nossa curiosidade, nos “convidando” a criar dezenas de hipóteses. E à medida que o véu do mistério vai se levantando, a gente se surpreende mais e mais com a engenhosidade formidável do texto. É, sem dúvida, um daqueles filmes em que a batuta do diretor fala mais alto, mas não se engane: a dupla de protagonistas sustenta o delírio. Stewart está sublime nesse espiral de obsessão, e Kim Novak… o que ela faz com as expressões, construindo uma personagem tão etérea e misteriosa, é o que garante a nossa confusão e o fascínio absoluto pela trama.

A Direção de Hitchcock em Um Corpo que Cai: Inovação, Pesadelo e Tensão Constante

Mas vamos ao prato principal, que é o maior mérito do filme: a direção de Alfred Hitchcock. Retorno ao que disse no início — ele inovou até o último fio de cabelo. Com os parcos recursos técnicos dos anos 50, ele subverte a gramática visual usando movimentos de câmera ousadíssimos, jogos de luz primorosos e uma trilha sonora simplesmente amedrontadora do genial Bernard Herrmann. É essa combinação que injeta uma dose de tensão sem a qual a obra não seria a lenda que é.

Pense, por exemplo, em Torrentes de Paixão (Niagara, 1953), com a Marilyn Monroe: um roteiro igualmente redondinho, mas que não reverbera até hoje justamente porque lhe falta essa asfixia. Aqui, pelo contrário, não faltam momentos de tirar o fôlego. As sequências em que Scottie enfrenta sua fobia são formidáveis, mas a cena do pesadelo? É um deslumbre da psicanálise visual.

Claro que nem tudo é perfeito. Há passagens na primeira metade em que o filme, digamos, toma o seu tempo até demais, estendendo-se de uma forma que acaba prejudicando um pouco o ritmo. Em contrapartida, as paisagens de San Francisco, banhadas naquelas cores estouradas e vibrantes, são um deleite para os olhos.

Um Corpo que Cai e o Invento do “Dolly Zoom” (Efeito Vertigo)

E, se me perguntarem, o meu coração ainda bate mais forte por Janela Indiscreta (1954) e Psicose (1960). Mas negar a grandiosidade de Um Corpo que Cai é loucura. É uma experiência imperdível para quem quer ver como um verdadeiro mestre constrói a tensão do absoluto zero. Afinal, estamos falando da obra que obrigou Hitchcock a inventar aquele efeito genial do dolly zoom — o movimento simultâneo de afastar a câmera e dar zoom —, só para que nós, sentados na poltrona, sentíssemos no estômago a exata vertigem de James Stewart. É coisa de gênio.

Avaliação

Avaliação: 4.5 de 5.
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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