Todo Mundo em Pânico 6 é um retorno muito dedicado e divertido ao humor das paródias estilo pastelão. Elas fizeram sucesso entre os anos 1980 e 2000, mas a qualidade do gênero passou por um considerável enfraquecimento na década seguinte e, nos anos 2020, ele chegou minguado e praticamente inexistente. Com essa tentativa, que atinge tanto a direita quanto a esquerda, de limitar a arte e o humor, sobrou muito pouco espaço para criar e quase nenhum para ousar. Não à toa, Marlon Wayans, uma das vozes por trás do roteiro e da atuação deste longa-metragem, definiu o filme como uma comédia capaz de “cancelar a cultura do cancelamento”.
A Dupla Dinâmica Voltou: O Reencontro de Anna Faris e Regina Hall
Em uma cena, uma personagem é esfaqueada, mas não perde a chance de debater política e identidade. O que, claro, só gera mais polêmica, graça e confusão. Em outro momento, a protagonista Cindy, vivida por Anna Faris, se encontra com a melhor amiga, a Brenda de Regina Hall. Aliás, Cindy, após as perseguições de Ghostface, coleciona armas sob sigilo devido a problemas de saúde mental. Ela mostra um afeto genuíno por Brenda. Mas diz que, agora como republicana, acha que precisa ser racista. Porém, a resposta (“Todo branco é racista mesmo”), seguida de um abraço caloroso, dita o rumo da interação.
Esse senso de humor bobo, crítico, nostálgico e que, ao mesmo tempo, reflete questões profundamente contemporâneas, é um dos grandes trunfos da obra. O roteiro também se beneficia do vasto acervo de obras de terror recentes para parodiar. Isso ocorre pela distância entre este e o dispensável quinto filme de 2013, que contou com Ashley Tisdale. E não teve o envolvimento nem das protagonistas, nem dos roteiristas originais.
Metalinguagem e Sátira: Como Todo Mundo em Pânico 6 Zomba do Terror Contemporâneo
Outro acerto cômico deste sexto capítulo é como ele aborda a metalinguagem. Ela foi ainda mais fortalecida nos filmes recentes do Pânico original (embora seja uma característica de ambas as franquias desde os primórdios). Em Todo Mundo em Pânico 6, esse toque metalinguístico também é elevado à milésima potência e de maneiras até mais criativas do que se poderia imaginar de primeira. Claro, sempre sob a lente do besteirol. Isso culmina em um ato final que, icônico e genial, engrandece bastante a experiência de se divertir com o filme. Apesar de, antes disso, o ritmo e a qualidade das piadas oscilarem bastante. Ainda assim, a cena de abertura, com uma participação mais que especial de Teyana Taylor (indicada ao Oscar por Uma Batalha Após a Outra), que zoa a si mesma, é memorável.
A Vingança dos Irmãos Wayans Em Todo Mundo em Pânico 6: O Controle Criativo e a Vitória da Franquia
Todo Mundo em Pânico 6 marca o retorno dos irmãos Wayans ao controle criativo da franquia que idealizaram e da qual foram demitidos após um segundo filme que é, na melhor das hipóteses, irregular. O “rancor” que a situação gerou está no cerne de algumas das melhores piadas do longa. Se a melhor vingança é a própria vitória, Todo Mundo em Pânico 6 é, definitivamente, uma comédia vitoriosa.
Vídeo – Todo Mundo em Pânico 6
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.


A vingança não é um prato que se come frio, pq as risadas nos deixam bem quentinhas kkkk