Crítica | Sombras da Noite: O Deslumbre Visual e o Descompasso de Tim Burton e Johnny Depp - O Mundo Autista
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Crítica | Sombras da Noite: O Deslumbre Visual e o Descompasso de Tim Burton e Johnny Depp

crítica de Sombras da Noite (2012). O reencontro de Tim Burton e Johnny Depp entrega um visual deslumbrante e gótico, mas esbarra em um roteiro confuso e sem tom definido.

Crítica de Sombras da Noite (2012). O reencontro de Tim Burton e Johnny Depp entrega um visual deslumbrante e gótico.

Crítica de Sombras da Noite (2012). O reencontro de Tim Burton e Johnny Depp entrega um visual deslumbrante e gótico.

Quando a gente pensa na dobradinha Tim Burton e Johnny Depp, a expectativa é imediata, não é? Nós aguardamos, no mínimo, um espetáculo visual casado com uma narrativa ímpar, daquelas que só a mente de Burton consegue conjurar. Infelizmente, assim como no equívoco feérico que foi Alice no País das Maravilhas (2010), este Sombras da Noite (Dark Shadows, 2012) sofre de um mal crônico: um roteiro que, francamente, deixa muito a desejar. O que o salva do naufrágio total é, veja bem, o inegável faro estético do diretor e um elenco que se recusa a afundar.

O Prólogo Promissor e a Maldição de Barnabas em Sombras da Noite

O filme até nos engana com um prólogo fascinante. Somos apresentados a Barnabas Collins (Depp), um lorde que comete o erro fatal de negar o amor de uma bruxa, a rancorosa Angelique (Eva Green). A vingança, como era de se esperar, é impiedosa. Ela força a amada de Barnabas, Josette (Bella Heathcote), a se atirar de um penhasco. Ao pular atrás dela em desespero, Barnabas descobre sua nova e trágica condição: ele se transformou em um vampiro. Trancafiado em um caixão por séculos, ele nos deixa com uma introdução sombria, gótica e envolvente — exatamente a essência do que amamos na parceria Burton-Depp.

Sombras da Noite: Uma Mansão de Personagens Excêntricos

O feitiço, porém, começa a perder força quando saltamos no tempo e acompanhamos a jovem Victoria (novamente Heathcote) a caminho da decadente mansão dos Collins para assumir o posto de tutora. Ali, adentramos o clássico e delicioso catálogo de excentricidades do diretor.

Conhecemos o esquisitíssimo caseiro Willie (Jackie Earle Haley), a gélida e fascinante matriarca Elizabeth (uma sempre maravilhosa Michelle Pfeiffer), seu irmão Roger (Jonny Lee Miller), o jovem David (Gulliver McGrath) e a peculiar psiquiatra residente, Dra. Julia Hoffman (Helena Bonham Carter, brilhando em sua zona de conforto). Mas quem realmente rouba a cena nesse zoológico humano é Chloë Grace Moretz. Fresca de seu triunfo em A Invenção de Hugo Cabret (2011), ela está simplesmente ótima na pele da adolescente rebelde e perpetuamente mal-humorada, Carolyn.

A Crise de Identidade de Sombras da Noite: Terror, Comédia ou Romance?

A trama avança para 1972, quando um grupo de operários acidentalmente liberta Barnabas de sua prisão secular. Após um banho de sangue inicial, o longa, que flertava perigosamente com o terror, subitamente veste a fantasia da comédia de choque de culturas. E esse, meus caros, é o grande pecado de Burton na direção deste filme: a completa e absoluta indecisão de tom. A obra não sabe se quer ser um horror gótico, uma comédia de absurdos ou um romance trágico. Ao tentar abraçar todas essas identidades, acaba não se encaixando em nenhuma.

Barnabas tenta reerguer o império de pesca da família — agora ofuscado pela própria bruxa Angelique — enquanto se apaixona por Victoria, a cópia exata de sua falecida Josette. O desenvolvimento dessa paixão? Tão clichê quanto a premissa sugere. O roteiro de John August sofre de uma perigosa falta de costura. As informações são arremessadas na tela, e os personagens evaporam e ressurgem com uma desorganização que quebra completamente a imersão.

Sombras da Noite: O Luxo Visual Compensa o Vazio Narrativo?

O que nos resta, então? Algumas qualidades esparsas, é verdade. Há uma subtrama interessante sobre o preconceito contra o “diferente” que traz deliciosos ecos do brilhante Edward Mãos-de-Tesoura (1990), embora aqui seja tratada de forma um tanto superficial.

Mas é no apelo estético que o filme respira. A direção de arte é suntuosa, de um negrume belíssimo, perfeitamente alinhada aos figurinos impecáveis e aos efeitos especiais competentíssimos. O elenco, como mencionei, faz o que pode com o material que tem. Johnny Depp nos entrega mais um de seus tipos bizarros com a habilidade habitual; Bella Heathcote empresta uma doçura adorável à sua Victoria; e Eva Green é um furacão, entregando uma performance que beira o irregular muito mais pela sabotagem do roteiro frouxo do que por falta de talento.

No fim das contas, a impressão que fica quando os créditos sobem é aquele gosto amargo de “o que poderia ter sido”. Para um filme agraciado com esse elenco estelar e a visão inconfundível desse diretor, era imperativo que tivéssemos um roteiro à altura. É um belo embrulho, sem dúvida, mas com um conteúdo que não entrega o que promete.

Avaliação

Avaliação: 2.5 de 5.
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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