Crítica | Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria: O Caos Materno - O Mundo Autista
O Mundo Autista

Crítica | Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria: O Caos Materno

Crítica de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. Estrelado por Rose Byrne, o filme explora a exaustão materna e o colapso mental.

Crítica de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. Estrelado por Rose Byrne, o filme explora a exaustão materna e o colapso mental.

A protagonista de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, Linda, é uma mãe e terapeuta exausta e sobrecarregada. Mas, além do esgotamento físico evidente, há algo ainda mais apavorante na personagem central deste longa-metragem escrito e dirigido por Mary Bronstein. O filme, aliás, equilibra drama psicológico com pitadas pontuais de comédia e terror.

O colapso mental e o peso do cotidiano

Trata-se da história de alguém que já desmoronou há tempos. Portanto, a protagonista é alguém que não consegue reagir adequadamente nem sentir pena de si mesma. Assim, ela limita-se a responder por puro reflexo ao que acontece ao redor. Ela perdeu a noção do que é um pequeno ou grande problema; todos parecem devastadores. Por não estar minimamente saudável, suas ações geram consequências desastrosas em várias esferas. Exemplos disso são mortes de animais de estimação, brigas no trânsito e o fracasso em socorrer a filha ou os pacientes, que os coloca em risco.

Linda precisa sustentar relações e ambientes inteiros que dependem de sua estabilidade. Isso ocorre tanto na vida íntima quanto no trabalho. Porém, tudo desaba ao seu redor sem qualquer trégua. O cerne do conflito reside no fato de que alguém em queda livre e em estado tão desesperador não tem condições emocionais de cuidar de si, muito menos de oferecer suporte aos outros. Ainda assim, o mundo continua a exigir dela uma precisão impecável nos papéis de mãe, esposa e profissional.

A hipocrisia das relações e a falta de rede de apoio

O filme ganha força na interação entre Linda, que é interpretada por Rose Byrne, indicada ao Oscar pelo papel, e o elenco coadjuvante. Esses personagens periféricos falham em cumprir seus papéis na relação, embora continuem exigindo que ela dê conta de tudo. O terapeuta, vivido por Conan O’Brien em uma performance calculada para gerar desconforto e antipatia, mostra-se evasivo diante de questões práticas e a desampara no momento mais crucial do tratamento. Em paralelo, a médica da filha promove workshops de acolhimento para aliviar a culpa materna. Mas, na prática clínica, responsabiliza Linda por cada entrave no quadro da menina. Dessa forma, exige maior dedicação materna sem oferecer qualquer suporte ao turbilhão emocional enfrentado pela família. Trata-se, portanto, de uma dinâmica burocrática e fria. Já o marido de Linda surge como uma figura ausente, alheia às dores do cotidiano. Em alguns momentos, ele relativiza a paternidade em prol do próprio lazer. Este é um privilégio que só sustenta porque sabe que a esposa assumiu o fardo.

A filha se comporta como uma criança comum. Ela testa limites para obter o que deseja. Contudo, enquanto o pai cede e transfere as tensões, a obrigação de impor ordem recai integralmente sobre a mãe. A decisão da diretora Mary Bronstein de quase não expor visualmente a garota é precisa. Afinal, ela evita que o público sinta antipatia pela criança. Em vez disso, canaliza todo o foco para o peso, por vezes desumano, da maternidade. Essa escolha também cria a metáfora de que a mãe não enxerga a menina, apenas a própria dor espelhada pelas tarefas cotidianas.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria: Rose Byrne e a direção sensorial de Mary Bronstein

Rose Byrne é madura ao recusar a postura de vítima passiva. A personagem vive pedindo para as pessoas lhe oferecerem o caminho, mas não vê o todo. Seu foco está nos detalhes mais problemáticos em vez de ouvir as soluções que os outros lhe sugerem. Mas Byrne convida o espectador a suspender o julgamento moral sobre alguém que, soterrada pelas circunstâncias, comete erros sucessivos.

A menina, que convive com uma ostomia, demonstra uma resiliência surpreendente diante de sua condição. Enquanto isso, Linda se afoga em um mundo hostil, incapaz de encontrar mãos estendidas para acolher as próprias angústias. E, ao abrir mão de explicações fáceis em prol de uma atmosfera quase onírica e de forte apelo sensorial, Mary Bronstein torna o drama ainda mais palpável.

Avaliação de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria: 8/10

Sophia Mendonça

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado