Pacto Secreto (2009) reúne praticamente todos os ingredientes que espero de um bom slasher. Assim, há um mistério interessante à moda de “quem matou?”, mortes criativas, perseguições eficientes e, principalmente, interações divertidas entre personagens interessantes. O que confere personalidade à obra, aliás, é a maneira como ela trabalha o protagonismo feminino em um gênero historicamente marcado pela punição às mulheres. Afinal, o slasher tradicional construiu boa parte de sua gramática ao redor de uma divisão bastante conhecida. Dessa forma, havia garotas que bebiam, transavam ou se comportam de maneira considerada inadequada. A elas, era reservado um destino fatal. Enquanto isso, a “final girl”, mais recatada e moralmente correta, sobrevive para enfrentar o assassino.
A fórmula do slasher: mistério, mortes e a regra da “Final Girl”
Em Pacto Secreto, contudo, a relação da história com as personagens traz uma dose muito maior de complexidade. Isso porque o filme parece destinar afeto às garotas justamente pelas características pelas quais o slasher tradicional costuma puni-las. Jessica (Leah Pipes) é um exemplo disso. A garota é cruel, vulgar, sexualmente segura, egoísta e capaz de transformar praticamente qualquer diálogo em uma oportunidade para humilhar alguém. Assim, ela poderia facilmente ser apenas a garota insuportável destinada a uma morte particularmente gráfica. Só que Leah Pipes transforma a personagem em uma presença absolutamente magnética. Dessa forma, Jessica transforma-se em uma figura que é, ao mesmo tempo, repreensível e divertida.
Protagonismo feminino e o afeto pelas garotas “incorretas” em Pacto Secreto
Outro destaque é Jamie Chung, como Chugs. A sexualidade da personagem não precisa ser compensada posteriormente por uma transformação que a torne uma mulher mais “respeitável”. Ela é divertida justamente porque existe dentro daquele universo com uma liberdade que normalmente seria utilizada pelo próprio gênero apenas como justificativa para puni-la. Toda essa distribuição de personalidade entre as mulheres torna a relação de Pacto Secreto com feminilidade e violência muito mais ambígua do que a velha fórmula “garotas promíscuas morrem”.
Estética camp dos anos 2000 e um desfecho previsível
Além da dinâmica envolvente entre as atrizes, o filme envolve graças à estética ao estilo anos 2000. Assim, há uma forte pegada camp nos exageros cômicos ou dramáticos. Os figurinos, a trilha e a fotografia também encaixam-se muito bem na proposta. Dessa forma, o único aspecto mais incômodo é a revelação do assassino que, por ser tremendamente previsível, não está à altura do que se percebe no restante da projeção.
Avaliação de Pacto Secreto: 7/10

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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