“Os Roses: Até Que a Morte os Separe” (2025) é um filme paradoxal. Isso porque, ao mesmo tempo que este longa-metragem sobre divórcio diverte e envolve por ser uma comédia simpática com toques de humor ácido — impulsionada pelo imenso talento do casal protagonista —, o tom acaba sendo leve demais para extrair reflexões que o tornem memorável após a sessão.
O ponto mais irônico reside justamente nas interpretações de Olivia Colman e Benedict Cumberbatch. Se, por um lado, é fácil se importar com os personagens graças ao charme e à energia da dupla, por outro lado, essa mesma dinâmica revela-se problemática. Afinal, eles são tão carismáticos juntos que fica difícil embarcar na ideia de um divórcio destrutivo. Com isso, as atitudes mais horríveis dos personagens são deslocadas e forçadas. Portanto, soam como se estivessem ali por uma exigência narrativa que não se manifesta de modo orgânico.
O enredo de Os Roses aborda crise no casamento
A história começa em Londres, onde Theo, um arquiteto ambicioso e arrogante, conhece Ivy. Ela é uma talentosa e obstinada chef de cozinha. A química é instantânea. Tanto que Theo decide seguir Ivy para os Estados Unidos para que ela possa perseguir seus sonhos culinários. Dez anos depois, em Mendocino, Califórnia, a dinâmica sofreu uma mudança. O projeto de vida de Theo — um museu marítimo de design arrojado — desaba fisicamente após uma tempestade. Dessa forma, torna-se uma piada viral que destrói a carreira dele da noite para o dia.
Simultaneamente, o pequeno restaurante de frutos do mar que ele comprou para Ivy, o “We’ve Got Crabs”, tornou-se um fenômeno global. Com isso, Ivy transforma-se em uma celebridade gastronômica e principal provedora da família. Incapaz de lidar com o fracasso, Theo assume o papel de “pai dono de casa”. Assim, ele canaliza a própria obsessão por controle em um regime de fitness militarizado para os filhos, Hattie e Roy. O conflito atinge o ponto de ruptura quando constroem sua “casa dos sonhos” à beira-mar. Esta é uma residência financiada pela fortuna de Ivy, mas projetada pelos caprichos obsessivos de Theo. Portanto, revela-se a manifestação física do ego de ambos. Então, quando os filhos partem para a faculdade, os últimos amortecedores do casamento desaparecem. E o que começa em uma terapia de casal desastrosa escala rapidamente para uma guerra jurídica e emocional.
Crítica de “Os Roses: Até Que a Morte os Separe”, comédia sobre divórcio com Olivia Colman e Benedict Cumberbatch
“Os Roses” é um bom filme, mas mostra-se agradável demais para se tornar uma pérola cômica visceral ou uma análise profunda sobre o estresse conjugal e os papéis de gênero nos relacionamentos contemporâneos. O roteiro de Tony McNamara (vindo da parceria de sucesso com Yorgos Lanthimos em “Pobres Criaturas” e “A Favorita”) é recheado de monólogos hiperanalíticos e flertes através de insultos repletos de termos terapêuticos. Cumberbatch, em particular, surpreende em um papel que exige nuances de comédia física, arrogância e vulnerabilidade.
No entanto, o diretor Jay Roach hesita em tornar os protagonistas verdadeiramente irremediáveis. Ao manter um controle constante sobre a “simpatia” da dupla, ele enfraquece a natureza da comédia ácida. O resultado é uma obra que arranca sorrisos e diverte com seu humor britânico refinado. No entanto, “Os Roses” sacrifica a complexidade e o valor artístico em favor de um entretenimento mais seguro.
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Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.


Não sei, achei meio arrastado tbm demora para se entrosar com o ritmo mas, os dois atores seguram bem as pontas, mas no fim é um filme bem mediano!