O cinema passou décadas nos vendendo a ideia do encontro mágico, das almas gêmeas e do fatídico, e inevitável, “felizes para sempre”. A tendência contemporânea do chamado “anti-romance”, contudo, joga um verdadeiro balde de água fria na nossa cabeça. É a arte nos encurralando e perguntando: “Será que esse amor de cinema sobrevive à segunda-feira de manhã no mundo real?“. E O Drama, protagonizado por Zendaya e Robert Pattinson, se atira de cabeça nessa prateleira.
O Drama e a era do “anti-romance” no cinema contemporâneo
Confesso que, embora a proposta dessa desconstrução seja interessantíssima, nem sempre ela me apetece. Vejam bem, eu sou fascinada por (500) Dias com Ela e por toda aquela radiografia brilhante de como nos apaixonamos muito mais por uma idealização do que pela pessoa de carne e osso que está na nossa frente. Mas, de modo geral, essa lente de “realismo cínico” que tomou conta da maneira como retratamos a experiência humana acaba diminuindo o valor simbólico inerente à arte. Em vez daquela faísca de esperança que nos motiva ao autoaprimoramento, nós saímos da sessão com uma sensação incômoda de conformismo.
E é aqui que entra o grande problema de O Drama. Esse cinismo é agravado pela maneira como o filme atira temas pesadíssimos e reações passionais, quase exacerbadas, na tela. A abordagem não convence. Soa, francamente, como uma construção artificial e muito superficial.
O peso do passado: a personagem de Zendaya em O Drama convence?
Esse problema começa logo na concepção do passado da personagem da Zendaya. É que, por mais grave que seja aquilo que ela pensou em fazer, a mudança de postura da personagem e os motivos que a levaram até ali ficam tão escancarados, tão evidentes, que o filme perde a chance de construir qualquer mistério emocional. Existe ali uma busca incessante do diretor por um clima que misture leveza cômica com desconforto dramático, mas a coisa não engrena. Tudo parece encenado demais, engessado demais.
O que segura o filme é o elenco. Zendaya e Robert Pattinson, por exemplo, entregam interpretações excelentes. Eles capitaneiam a história com uma competência formidável e fazem o absoluto máximo com o material que têm em mãos.
Veredito
No fim das contas, a despeito dos seus tropeços, O Drama consegue divertir, principalmente nos seus momentos de maior catarse. E ele tem um mérito indiscutível: quando a sessão acaba, ele abre margem para uma série de diálogos riquíssimos sobre confiança, violência e comportamento humano. Portanto, não deixa de ser um entretenimento inteligente. Mas que poderia ter voado muito mais alto, isso poderia.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

