Crítica: “Na Companhia do Medo” (2003) - O Mundo Autista
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Crítica: “Na Companhia do Medo” (2003)

A história do filme “Na Companhia do Medo” e o rótulo de “louca” às mulheres. Obra se perde entre o horror psicológico e o terror sobrenatural

A história do filme “Na Companhia do Medo” e o rótulo de “louca” às mulheres. Obra se perde entre o horror psicológico e o terror sobrenatural

A história do filme “Na Companhia do Medo” e o rótulo de “louca” às mulheres. Obra se perde entre o horror psicológico e o terror sobrenaturalPHOTOGRAPHS TO BE USED SOLELY FOR ADVERTISING, PROMOTION, PUBLICITY OR REVIEWS OF THIS SPECIFIC MOTION PICTURE AND TO REMAIN THE PROPERTY OF THE STUDIO. NOT FOR SALE OR REDISTRIBUTION

​O filme de terror “Na Companhia do Medo”  (2003) parte de uma premissa intrigante e promissora. Afinal, a atmosfera de horror se baseia na ideia de que, uma vez que alguém é taxada como louca, quanto mais tenta se defender ou argumentar contra esse rótulo, mais instável parece aos olhos alheios. Dessa forma, o longa-metragem nos envolve em um medo que, para as mulheres, é bastante familiar: o de denunciar uma violência e levar a responsabilidade por ela, de modo a perder a credibilidade mesmo sendo a vítima.

Além disso, embora a psiquiatria tenha avançado na compreensão dos transtornos mentais, o senso comum ainda estigmatiza certas vivências como “loucura“. Assim, a percepção sobre o indivíduo rotulado é quase sempre enviesada. Com isso, desmerece sua visão dos fatos mesmo quando ele tem razão. E nem profissionais brilhantes da saúde mental estão imunes a manifestar esses preconceitos em suas avaliações.

A história do filme “Na Companhia do Medo” e o rótulo de “louca” às mulheres

​A trama de “Na Companhia do Medo” acompanha a Dra. Miranda Grey (Halle Berry). Ela é uma psiquiatra forense dedicada que trabalha na Penitenciária Feminina Woodward. Miranda acredita piamente na ciência e na lógica. Casada com o administrador do hospital, Douglas Grey (Charles S. Dutton), ela trabalha com seu colega Pete Graham (Robert Downey Jr.). Entre suas pacientes está Chloe (Penélope Cruz), uma mulher que afirma ser violentada por um espírito em sua cela. Esta é uma alegação que Miranda descarta categoricamente como um delírio psicótico.

​Em uma noite de tempestade, ao pegar um atalho por uma estrada deserta, Miranda depara-se com uma jovem parada na pista. Ao tentar ajudá-la, a garota entra em combustão espontânea. Miranda desmaia e acorda três dias depois em uma cela de isolamento, mas agora como paciente. Pete revela a notícia devastadora: ela é acusada de assassinar o marido brutalmente com um machado. Contudo, Miranda não tem qualquer lembrança do crime devido a um surto de amnésia dissociativa.

​Presa na instituição onde outrora mandava, a médica passa a ser assombrada pelo espírito da jovem da estrada. Enquanto as autoridades creem em um surto psicótico, ela percebe que a entidade tenta usar seu corpo para revelar algo terrível. Com isso, Miranda nota que a “loucura” de Chloe talvez fosse uma realidade negligenciada por sua própria arrogância científica.

Na Companhia do Medo se perde entre o horror psicológico e o terror sobrenatural

​São os temas densos que quase fazem o filme funcionar. Isso porque, com o auxílio da fotografia e da trilha sonora, a obra cria uma atmosfera arrepiante. No entanto, a execução não faz jus à profundidade temática. O que ocorre, principalmente, pela oscilação incerta entre o horror psicológico e o terror sobrenatural.

Então, ao priorizar os clichês do gênero em vez do desenvolvimento dos personagens, o resultado torna-se superficial. E nem mesmo o elenco de peso, composto pelos vencedores do Oscar Halle Berry, Penélope Cruz e Robert Downey Jr., consegue conferir a complexidade necessária ao enredo.

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Avaliação

Avaliação: 2.5 de 5.
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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