Matilda – O Musical é um filme delicado que passeia por diferentes concepções do fantástico. A produção oscila entre o colorido infantil, a sobriedade de uma garota-prodígio e um universo escolar adulto marcado por uma estética autoritária, que em diversos momentos remete visualmente a regimes totalitários. Dessa forma, a obra dirigida por Matthew Warchus envolve o espectador com uma montagem acelerada e um visual repleto de luzes, cores e movimentos coreografados.
O Brilhantismo de Alisha Weir no Papel Principal de Matilda – O Musical
Matilda Wormwood (Alisha Weir) é uma criança brilhante que cresce em meio a pais grosseiros e pouco interessados em sua educação. Enquanto eles desprezam sua curiosidade e seu amor pelos livros, a menina encontra na leitura uma forma de compreender o mundo e ampliar a própria imaginação. Quando finalmente é enviada para a escola, Matilda se depara com uma instituição comandada com mão de ferro pela diretora Agatha Trunchbull (Emma Thompson), cuja concepção de educação se baseia no medo, na humilhação e na disciplina extrema. É nesse ambiente que ela conhece a professora Srta. Honey (Lashana Lynch), uma das primeiras adultas a perceber sua inteligência e a tratá-la com verdadeira atenção.
É nas interpretações de Alisha Weir e Emma Thompson que o filme encontra boa parte de seu brilhantismo. A jovem atriz possui uma energia admirável sem jamais soar caricata. Ela se entrega ao papel de menina prodígio sem cair na armadilha de parecer uma criança simplesmente imitando os comportamentos de uma pessoa adulta. Weir constrói uma Matilda cuja inteligência convive com a inocência, a indignação e a necessidade infantil de encontrar alguém que realmente a compreenda.
A Essência de Roald Dahl: Educação, Inclusão e Atipicidade
Na interpretação de Alisha Weir, Matilda preserva justamente aquilo que torna a personagem criada por Roald Dahl tão fascinante. Assim, a inteligência da protagonista não aparece apenas como uma habilidade extraordinária, mas como uma forma de compreender o mundo e resistir a ele. A história permite pensar em superdotação e outras formas de atipicidade sem reduzir a menina a um diagnóstico ou a um rótulo. O que realmente importa é a maneira como sua curiosidade, a paixão pelos livros e a capacidade de transformar conhecimento em sabedoria oferecem instrumentos para enfrentar adultos que tentam diminuí-la.
Nesse sentido, a escola ocupa uma posição ambígua. Ela representa a possibilidade de descoberta, pertencimento e crescimento, mas também pode se transformar em um espaço de violência quando a educação é confundida com obediência, disciplina rígida e padronização. Dahl já construía essa oposição com um humor ácido, por vezes cruel e macabro, que o filme preserva dentro de sua atmosfera fabulesca. É nesse contraste que *Matilda* se torna também uma história sobre inclusão e humanismo. Isso porque uma menina considerada estranha pelos adultos encontra força quando alguém finalmente percebe que aquilo que a diferencia não precisa ser corrigido, mas compreendido e cultivado.
Protagonismo Feminino e m Matilda o Vínculo com a Srta. Honey
Com o desenrolar da narrativa, acompanha-se também o fortalecimento da heroína. Suas aptidões evoluem à medida que Matilda conquista coragem e autoconhecimento. Quanto mais a menina percebe que não precisa aceitar passivamente as injustiças dos adultos, maior se torna sua capacidade de interferir no mundo ao redor. Aliás, o protagonismo feminino de Matilda – O Musical aganha ainda mais força na relação entre a menina e a Srta. Honey. Embora ocupem posições muito diferentes, as duas enfrentam formas semelhantes de silenciamento. Afinal, enquanto Matilda é subestimada pela família e tratada como inconveniente por ser curiosa e inteligente, Honey aprendeu a sobreviver diminuindo a própria presença diante de uma autoridade abusiva. O encontro entre elas rompe esse ciclo. A professora é uma das primeiras adultas a olhar para Matilda sem tentar enquadrá-la, enquanto a menina, com sua coragem quase insolente, ajuda Honey a recuperar uma autonomia que parecia perdida.
Há algo especialmente bonito nessa troca porque o filme não transforma uma delas simplesmente na salvadora da outra. Elas se reconhecem, se fortalecem e encontram juntas a possibilidade de uma vida menos determinada pelo medo. Em uma história povoada por adultos autoritários, caricatos e frequentemente incapazes de escutar uma criança, são duas personagens femininas consideradas frágeis ou inadequadas que encontram força na inteligência, no afeto e na solidariedade.
Emma Thompson e a Monstruosidade da Diretora Trunchbull
Enquanto isso, Emma Thompson faz de Trunchbull uma figura que leva ao extremo os mecanismos de dominação presentes naquele modelo de escola. A personagem é monstruosa e deliberadamente exagerada, mas a atriz consegue preservar dentro da caricatura algo reconhecível. Trata-se da ideia de autoridade que considera qualquer diferença uma ameaça e transforma a disciplina em violência. Dessa forma, Thompson sabe dosar verossimilhança e fantasia com um equilíbrio admirável. Com isso, ela torna Trunchbull ao mesmo tempo uma vilã de fábula e a representação grotesca de uma concepção de educação que prefere controlar crianças a permitir que elas cresçam.
Avaliação de Matilda – O Musical: 8/10

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero. Em 2025, Sophia apareceu na posição #57 da lista de 64 egressos notáveis da UFMG, divulgada pelo EduRank. Ao longo de sua trajetória ela ganhou diversos prêmios, incluindo o Grande Colar do Mérito de Belo Horizonte (2016), o Special Tribute do Erasmus+ (2019) e o de micro Influenciadores Digitais do Portal da Comunicação (2023).
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI”, repórter da “Revista Autismo“ e apresentadora do podcast “Boas de Conversa” no canal do YouTube “Selma & Sophia“.. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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