Se existe um diretor capaz de te pegar pelo colarinho logo nos primeiros minutos de projeção, esse alguém é o Paul Thomas Anderson. E em Magnólia, o filme te impressiona com um prólogo que é um verdadeiro absurdo — no melhor sentido da palavra. Ele nos apresenta três histórias de mortes marcadas por coincidências tão insólitas que chegam a ser inacreditáveis. É uma preparação de terreno magistral para uma trama que vai explorar, nas próximas horas, como vidas aparentemente imiscíveis podem, sim, colidir.
A partir desse ponto, o que Anderson faz é construir um mosaico. Acompanhamos nove personagens pelo Vale de São Fernando, na Califórnia, durante um único e excruciante dia. Eles se esbarram por um capricho do acaso, é verdade, mas estão amarrados por fios invisíveis e universais: o arrependimento que corrói, o peso esmagador do trauma, a dificuldade do perdão e aquela busca quase desesperada por alguma redenção. Fugindo de qualquer estrutura linear, o diretor tece uma teia que é, francamente, um estudo complexo e profundamente tocante da condição humana.
O simbolismo em “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson
E veja bem: não é uma obra fácil. É um filme carregado de simbolismos e referências bíblicas que não estão ali de enfeite; elas aprofundam a narrativa e preparam o espectador para uma reviravolta que é de uma ousadia estonteante. Cada cena, cada diálogo atropelado, é essencial para a construção de um caos que, no apagar das luzes, faz um sentido absoluto. Você pensa: ‘São mais de três horas de duração, será que eu aguento?’. Mas a intensidade do que está na tela e a montagem dinâmica do Anderson são tão envolventes que o tempo, simplesmente, evapora.
Além da narrativa, o filme joga uma lente de aumento na superficialidade das nossas relações modernas e na fragilidade espantosa dos laços familiares, mostrando como os fantasmas do passado insistem em assombrar o presente. Para nos colocar dentro dessa angústia, o diretor abusa de planos longos, virtuosísticos, com uma câmera que persegue os personagens de forma quase claustrofóbica, criando uma intimidade lancinante. E, para sustentar tudo isso, o elenco precisava estar no auge. Eo que Tom Cruise e Julianne Moore fazem aqui é um assombro de entrega. É impecável. É, do primeiro ao último minuto, uma experiência de cinema que te consome por inteiro.

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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